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Futuro

Brasa que arde em mar tempera a carne, sal que corrói também preserva o rosto; hoje me banha um pranto que já não parte, amanhã será outro do mesmo desgosto. Chove em degredo a triste essência, de prender ao solitário sonho dissociado; da finitude finita da bela complacência. Vida só, de tanto mastigar o próprio fado.

A Alta Fantasia e o Espelho Colonizado: Uma Reflexão Sobre Cultura Engessada e Produção Literária no Brasil

Em um país cuja fundação simbólica foi o estupro, a escravização e a catequese, pensar sobre a produção cultural — e especificamente sobre a literatura fantástica — é um assunto polêmico,  divisor de águas em terras aprisionadas em uma mente conservadora, muitas vezes estetizada, mas raramente cicatrizada. O Brasil não apenas foi colonizado em sua terra, mas, mais profundamente, em seu imaginário. E talvez seja neste imaginário que se encontre o cerne da questão: por que a alta fantasia nacional não floresce com a mesma força com que florescem as importações do Norte Global? A resposta é multifacetada, mas a primeira camada é simples: o brasileiro médio ainda carrega, consciente ou inconscientemente, o peso de uma mente colonizada. Há um impulso automático, quase reflexo, de crer que o que vem de fora é melhor. Trata-se de uma internalização de inferioridade cultural, nutrida por séculos de dominação simbólica e material. A consequência direta disso é a percepção de que a literatur...

Soneto de Anelo e Saudade

Já não faz horas, e no meu silêncio, Eu noto a ausência tua em meu morar. Teu peso é luz no peito em desalento, Um eflúvio cruel a me habitar. Leva contigo a fúria do amor, E deixa-me esta paz que mal sossega. Não resta mais o medo nem o horror, Mas só o tempo em nós, que se renega. Rabiscos vão na folha ameaçada, Em rima orbital, prece que se lança, Fragmento de uma vida cobiçada, De quinze em quinze, cresce a esperança. Da poeira imóvel, da alma tocada, Do amor que me oferece tua dança. Ezequiel Guimarães - 2025

Cento e Vinte Passos na Penumbra - Capítulo 2

Willian havia feito o percurso que duraria ao menos seis dias em três. Se via no centro de Kalasch, conhecido como cidade de Lexov e isso somente reforçava a ideia de que Willian era o único que sabia como fazer as coisas, afinal, com homens treinados e um cocheiro habitante de Lexov, se perderam no meio da periferia. Além disso, Willian sabia que teria de esconder por algum tempo que não seguiu as orientações de Sirien. Esteja em um lugar seguro antes do escurecer, dissera o sacerdote kalaschiano, mas Willian ignorou pois quanto mais andava – ou melhor dizendo, corria – mais se dava conta de que o anoitecer em Kalasch era muito mais cedo do que em Barithael. Andava o quanto mais longe pudesse e então parava em alguma hospedaria próxima. Sirien também pediu que Willian não se colocasse em risco, mas frisou que se tratava da preocupação com o pobre do cavalo, que calvagaria tamanha distância com um cientista ganancioso nas costas. De todo modo, Willian finalmente se encontrava em Lexov....

Cento e Vinte Passos na Penumbra - Capítulo 1

O cheiro estava impregnado pelo quarto inteiro, o que não era difícil, visto que o quarto mais se parecia com um cárcere de tão pequeno quando comparado aos quartos que sempre tivera. Era um cheiro ardido, parecia incenso ou alguma erva queimada que não reconhecia, mas que era amarga e trazia consigo o cheiro de queimar. Seus olhos se abriam lentamente, captando, de início, somente a luz das velas no canto do cômodo. Quando sua visão desembaçou, pôde ver através das cortinas grossas e marrons, que balançavam com a brisa gélida, um feixe da luz de Althara no céu. Uma brisa gélida adentrava o quarto, e Willian sentia-na em seu rosto somente, pois estava coberto até o pescoço. Com o vento gélido acariciando seu rosto, Willian finalmente acordou, mexia os dedos por debaixo das cobertas, antes formigantes e respirava fundo, como se acordasse de um sono profundo. Ele tomou coragem e abriu os olhos, vendo um rapaz acendendo mais velas no quarto em movimentos leves, alto, talvez mais alto que ...

Cento e Vinte Passos na Penumbra - Prólogo

A sensação era de que Kalasch era sempre mais escura e seu anoitecer era ainda mais rápido do que em Barithael por algum motivo. A luz escassa do escurecer do inverno duplo-solar era arroxeada, com tons mais puxados para o azul, o que realçava a neve, pintando-a de um brilho frio, como vidro rachado que refletia a rarefeita luminosidade, ou da neblina e os ventos cortantes e gélidos que sibilavam em seus ouvidos. Havia uma melodia naquela ventania, algo cruel e insistente que se enroscava em seus ouvidos. Em Kalasch, as coisas eram sempre mais violentas, embora o mineral ácido – topaíta, era como chamavam – não fosse tão presente na atmosfera e os ventos não causassem ardência e o peso do chumbo nos pulmões, Kalasch ainda era conhecida como a terra dos selvagens, de uma nação dividida entre gangues. Além das gangues e do frio, surgia mais uma ameaça: Kalasch era permeada por mnyesas, criaturas semelhantes a centopéias gigantes, viviam em tocas até ouvirem o mais ínfimo som, melhor dize...

O preço da pressa: a contemplação como ato de resistência

A sociedade do desempenho está cansada, afirma Byung-Chul Han, ao descrever o ritmo frenético que rege o tecido social contemporâneo. Em análise, a sociedade atual vivencia o apogeu da tecnologia e avanços científicos, ao mesmo tempo que adoece devido ao seu diferencial. Nesse cenário, o indivíduo moderno vê-se mergulhado em um ciclo contínuo e monótono de tarefas e cobranças e o tempo perde sua espessura contemplativa e admite a aceleração como o mal do século. Então, repercute a discussão que foge da temporaneidade: o limiar entre a produção acelerada e a contemplação se tornou tênue e agora não sabemos mais qual devemos valorizar -- e como poderíamos fazer isso. Com a ascensão do neoliberalismo e a globalização, discursos que visam a produtividade e o pragmatismo tornaram-se cotidianos, cada vez minando mais a sensação de liberdade e transformando o tempo em matéria de cálculo. Nessa ótica, argumentos que afirmam a constante mudança da sociedade humana tornam-se ambíguos uma vez que...

Emoção e Razão: Uma briga eterna entre a presa e o predador.

É incontestável o auxílio ou mesmo interferência da emoção humana na comunicação. A subjetividade é não apenas um excelente mecanismo de linguagem, como também uma forma de provocação. Embora eficazes, as emoções não atuam somente como fatores externos, os quais recebemos, mas também estão alinhadas ao que somos e à nossa própria capacidade de discernir o que nos é transmitido e o que interpretamos. Desde os pré-socráticos até a contemporaneidade, de fato, encontra-se um padrão na vivência ocidental humana: a busca pela lógica e racionalidade. No entanto, mesmo que o homem abandone o mito e inicie a busca pela verdade, dissociando-se a emoção de seu eu para uma ideia focada no material, o sentimento sempre estará atrelado a mais pura expressão humana. Nesse raciocínio, torna-se valioso citar a teoria de Freud quanto ao uso das emoções para manipulação do tecido social, expressa em seu livro “A Psicologia das Massas”, em que o fundador da psicanálise apresenta a influência de nossa subj...

Quarenta Aprovados. Quatrocentos Corações.

O despertador tocou naquela manhã, como era qualquer outro dia, mas quatrocentos jovens sequer dormiram. Em fevereiro de 2025, não era comum que o Brasil dormisse, principalmente a juventude. Mas a insônia não era provocada pelo calor do aquecimento global. A adolescência brasileira é composta de muito mais do que cigarros eletrônicos e bebidas, afinal, naquela manhã, quatrocentas pessoas esperavam ansiosamente por uma notícia tão aguardada, envolvida de tanta luta e tanto suor. O corpo já avisa antes de entender. As mãos de um estão molhadas de suor, o outro está tão tenso que todo seu corpo se enrijeceu e a mandíbula dói e enquanto isso mais um tremia de pânico. Havia outros que, embora a ansiedade consumisse, faziam tudo que faziam cotidianamente; tomavam café, viam rede social, escutavam música ou até dormiam. A hora passava arrastada, dolorida. Alguns já abriam os computadores e como sempre, a página não carregava. Com muita insistência, abriam e não viam a notícia que aguardavam,...

Dois Sóis

Viviam em terras ensolaradas garota e garoto crescidos andavam de mãos dadas Em breve, teria amanhecido. a lua buscava sua vela o primeiro sol ocupado estava abandonando a lua bela o sol azul, apenas se distanciava garota e garoto crescidos, sequer vira a luz criança cresceram no inverno faminto e o sol azul ainda recusava a aliança. o primeiro apagava lentamente a morte beijou a garota amada fora levada, infelizmente sol azul buscava aprovação o primeiro alastrou a fome apenas por diversão não restou sequer um homem. garoto seguiu de pé sozinho a morte o levou também mas dessa vez, até de mansinho encontrou a amada no além