Cento e Vinte Passos na Penumbra - Prólogo
A sensação era de que Kalasch era sempre mais escura e seu anoitecer era ainda mais rápido do que em Barithael por algum motivo. A luz escassa do escurecer do inverno duplo-solar era arroxeada, com tons mais puxados para o azul, o que realçava a neve, pintando-a de um brilho frio, como vidro rachado que refletia a rarefeita luminosidade, ou da neblina e os ventos cortantes e gélidos que sibilavam em seus ouvidos. Havia uma melodia naquela ventania, algo cruel e insistente que se enroscava em seus ouvidos. Em Kalasch, as coisas eram sempre mais violentas, embora o mineral ácido – topaíta, era como chamavam – não fosse tão presente na atmosfera e os ventos não causassem ardência e o peso do chumbo nos pulmões, Kalasch ainda era conhecida como a terra dos selvagens, de uma nação dividida entre gangues.
Além das gangues e do frio, surgia mais uma ameaça: Kalasch era permeada por mnyesas, criaturas semelhantes a centopéias gigantes, viviam em tocas até ouvirem o mais ínfimo som, melhor dizendo, como o tal cientista que era, sentirem a mais ínfima vibração, rasgando a terra e a neve para chegar à superfície. Reza a lenda que mnyesas tinham seus famosos metâmeros, quitinosos como se fossem artrópodes, centenas de pés como miriápodes, e a tendência asquerosa de cercar a vítima e ferí-la com seu veneno em uma mordida tenebrosa de dolorida, repleta de veneno letal expelido por suas forcípulas. Dizia-se então que mnyesas matavam suas vítimas e botavam ovos em seu estômago, intestino e fígado, buscando nutrientes para sua prole. Atacam no escuro e sentiam as vibrações de até mesmo as batidas do coração humano, como diziam, embora nunca tivesse chegado a um consenso do quanto aquilo era verídico ou somente mais uma lenda para aterrorizar crianças antes de dormir. Uma verdadeira aberração!
Suas vestes em trapos flutuavam no vento, puxadas em uma dança bruta, enquanto o homem e sua espécie de cajado — um enorme galho de árvore carniceira que encontrou no caminho — trilhavam o caminho em silêncio e debaixo da luz tênue de Althara em seu crepúsculo com os Dois Sóis. Seu rosto estava coberto por inteiro, com exceção dos olhos, repletos de flocos de neve impregnados nos cílios.
Cruzar a fronteira fora o mais fácil. De carruagem, com fogo sempre ao alcance e homens treinados, não havia nada a temer. De Barithael até Kalasch eram alguns dias, tempo este que sequer conseguira dedicar-se à leitura pois a luz dos Sóis em Kalasch parecia inexistente, mesmo que o Inverno Duplo-solar fosse mais quente do que os outros dois invernos. Sem livros ou qualquer outra atividade que demandasse um pouco de luz, sucumbiu ao tédio no banco aveludado da carruagem.
Não temeu mnyesas pois sua família havia garantido que mandaria com ele homens treinados para matar aqueles enormes centipedes. Sequer temia algo, convencido, estava certo de que chegaria à Universidade de Lexov e seu tédio teria um fim.
Entretanto, por mais que os homens fossem treinados, desconheciam o mapa da cidade kalaschiana e aquela nobre carruagem caiu nas vielas, onde alguns ladrões se posicionaram na cidade tão rapidamente que a carruagem não resistiu ao assalto.
Sorte a sua que ainda conseguia correr. E um dos rapazes enviados por sua família lhe garantiu uma distração para que fugisse.
Perdido e desolado, ele andava pela tempestade de neve, cada vez mais fraco, utilizando do galho para se sustentar sob os pés, mas cada vez mais fraquejava. Estava anoitecendo e a luz se tornaria inexistente, não se via nenhuma vila ou cidade, nem mesmo uma ou outra construção solitária. Somente dunas e mais dunas daquela neve cristalina que refletia como cacos de vidro cortantes. Como pôde fugir tanto das vielas? Onde estava agora? E ele logo já perdia as esperanças, mas continuou andando contra o vento. Ele apertou o capuz mais próximo de sua pele, mas os tecidos escuros já estavam encharcados de neve derretida enquanto o mundo parecia borrar-se ao seu redor.
Um passo de cada vez, ele repetia em sua mente, ciente que qualquer mínimo som seria fatal. Era a única coisa que podia pensar, como um mantra que o instigava a continuar sua jornada.
Ele forçava os pés sob a neve, sentindo-a afundar consigo a cada passo. Ele tremia e sua mão começava a fraquejar em segurar o enorme galho, ele sabia que o culpado não era somente o frio, mas a dor que irradiava seu corpo como uma lembrança dolorosa. Uma memória impressa em seu corpo. Um eco. Uma ameaça.
Ele apertou os dedos contra o enorme galho, sentindo o peso da madeira afundando em suas palmas dormentes. Ele sabia que não deveria estar ali, sabia que qualquer um de Kalasch que o visse naquele estado o veria como um intruso, um estrangeiro. Um parasita.
Já havia andado demais para desistir; chegaria a algum lugar antes que morresse pois se recusava a desistir tão próximo do destino almejado. Olhou ao redor e somente viu as enormes planícies de neve pálida, mas continuou seguindo em frente, desamparado.
A cada passo, sua mente divagava de volta para as memórias de Barithael, aos seus céus tingidos em um tom azulado e a luz do verão duplo-solar na paisagem cinzenta de fractais de pedras que reluziam sob a luz solar. Lá a vida era dura, mas o calor era familiar, constante, confortava aqueles que não tinham nada senão um copo de água e alguns pães. Aqui o frio era amedrontador, desumanizava, tirava sua identidade e sobrepunha sob seu rosto apenas a marca da sobrevivência. O frio era um inimigo sem rosto, um adversário que ria a cada rajada de vento.
Continuou andando, puxando mais uma vez o capuz para que cobrisse mais seu rosto, como se isso pudesse proteger as partes expostas de sua memória. Fechou os olhos por um instante e pôde ver tudo que sempre sonhou e alcançou em sua terra natal, da última vez que estivera em Barithael. Laboratórios. Instrumentos espalhados e as dezenas de insetos em quadros. Palavras de alerta que ele ignorou, — Você não entende, Willian. Não entende o que está carregando — eles diziam. Ele entendia, agora. Ou talvez não entendesse e aquilo era somente um eco do que o desespero faz a um humano. De dentro de suas entranhas, ele sabia que persistiria cometendo o mesmo erro se sobrevivesse.
Olhou para cima e contemplou Althara, estava cheia e o crepúsculo via seu fim aos poucos, irradiava uma luz prateada pelas planícies de neve azuis. Ele se forçava a caminhar, um passo de cada vez, repetia para si mesmo quando notava que não havia nada além de montes de neve, ventos cortantes que uivavam e formações rochosas ao horizonte que se erguiam como obeliscos. Aquele vazio, aquela ausência de vida, tudo parecia ser uma tentativa de Destino em caçoar de sua situação terrível. Uma piada cruel que o universo decidira contar a ele e, naquele momento, parecia que somente a ele.
Os ventos sopravam mais forte, queriam puxá-lo ao chão e levá-lo consigo. Mas Willian fincou o galho na neve e continuou a andar, respirando fundo. O ar congelante queimava as suas narinas, arranhava sua garganta como cacos de vidro. Ainda assim, ele continuou. Não havia outra escolha.
Era impossível que não chegasse a lugar algum, uma casa, uma hospedaria, em algum lugar. Ele sabia disso, mas a dúvida ricocheteava em sua cabeça a cada passo, pois sentia-se distante, cada vez mais distante. O que faria se não estivesse próximo de nada? Se fosse tudo em vão?
Continue andando. Um passo de cada vez, ele repetia a si mesmo. Talvez fosse sua mente brincando com ele, talvez fosse um desejo verdadeiro de sobrevivência. Era um comando, e ele obedeceu, embora cada um dos seus ossos gritasse pelo contrário.
Ele quase se arrastava pelo chão, contendo sua vontade de urrar de dor por seus ferimentos e se colocando a andar até o primeiro sinal de civilização que notasse aonde quer que fosse.
A paisagem se tornou monótona por tempo demais, os ventos eram sempre os mesmos e à neve rodopiava sempre em mesmos movimentos. O azul gélido em meio à escuridão começava a irritá-lo, fazia seus olhos arderem e em seu corpo emergia a vontade de gritar a cada passada.
Então ele viu.
Enorme, um Templo da Sangria erguia-se no horizonte com sua arquitetura brutal. Seus formatos retangulares, que, aos poucos diminuíam de tamanho e lhe conferiam um aspecto triangular que gradualmente ficava pontudo traziam um ar tão diferente do de Barithael, comprido, tão comprido que a névoa era capaz de cobrir suas pontas e deixá-las invisíveis ao olhar humano, como se a construção cortasse o céu.
Willian parou. Sentiu um aperto em seu corpo, algo inominável que o fazia parar devido à agonia. Não era emoção, era muito mais profundo, muito mais selvagem.
Suas vestes ainda dançavam ao som do vento em um baile desamparado e frenético enquanto o homem dava passos desajustados e doloridos em direção ao templo, cada vez mais exausto. Até que então tropeçou em seus próprios pés e teve a queda amortecida pela neve que era puxada de um lado para o outro pelos ventos. Seus joelhos falharam, bambos, a neve queimava sua pele com sua textura gélida. Willian mordeu o lábio, tentando se erguer, mas seu corpo não o obedecia, não conseguia continuar o caminho. Não mais.
Ele então se arrastou.
Quase sem controle de seu próprio corpo, ele cravava as mãos na neve até encontrar algo fixo no chão e puxava seu corpo com um leve impulso das pernas. Um passo de cada vez, ele ainda repetia. Cada movimento era uma luta vencida contra a vontade de desistir. Já fui longe demais para morrer.
O templo parecia cada vez mais distante. Ele continuou se arrastando até onde aguentou, até que sua visão, fixa em Althara, começou a se escurecer, o brilho da lua se entorpecendo, apagando-se como uma luz tênue de vela. Ele queria gritar, mas o vento, a fadiga e sua desistência apagaram qualquer resquício de sua luta.
Mãos. Ele sentiu mãos. Fortes, porém cuidadosas, ergueram seu corpo fatigado por seus braços. Ele não tinha força para lutar, muito menos para abrir os olhos. Não sabia quem o segurava e para onde o levavam, mas, pela primeira vez em muito tempo, isso parecia não importar.
Willian aceitou o que Destino lhe reservava.
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