Cento e Vinte Passos na Penumbra - Capítulo 2
Willian havia feito o percurso que duraria ao menos seis dias em três. Se via no centro de Kalasch, conhecido como cidade de Lexov e isso somente reforçava a ideia de que Willian era o único que sabia como fazer as coisas, afinal, com homens treinados e um cocheiro habitante de Lexov, se perderam no meio da periferia.
Além disso, Willian sabia que teria de esconder por algum tempo que não seguiu as orientações de Sirien. Esteja em um lugar seguro antes do escurecer, dissera o sacerdote kalaschiano, mas Willian ignorou pois quanto mais andava – ou melhor dizendo, corria – mais se dava conta de que o anoitecer em Kalasch era muito mais cedo do que em Barithael. Andava o quanto mais longe pudesse e então parava em alguma hospedaria próxima. Sirien também pediu que Willian não se colocasse em risco, mas frisou que se tratava da preocupação com o pobre do cavalo, que calvagaria tamanha distância com um cientista ganancioso nas costas.
De todo modo, Willian finalmente se encontrava em Lexov. Andava admirado pelo centro da cidade, entre as barracas da feira de hortaliças e por cima de tijolos úmidos de neve derretida. Ele podia ver a Universidade próxima, sua silhueta por trás das casas e prédios da cidade. Era enorme e alta, parecia uma construção de herança do período feudal em Kalasch e reapropriada para os estudos. Conforme percorria a cidade, apressado, mas ainda atento aos detalhes de Lexov, tão diferentes de qualquer cidade de Barithael, seus telhados esguios e íngremes, assim como o formato das telhas ou as janelas triangulares, o chão de pedregulhos cinzentos ou negros, cobertos de neve suja e acima de tudo, o ar, tão respirável.
Barithael era um país muito influenciável, um país majoritariamente dominado por outros reinos como Porto Nobre por ser o ponto que interligava Viladrael, Kalasch e a mais nova fundada Norandelle ao comércio com o Norte. Por isso, Porto Nobre, o país vizinho, investira pesado na industrialização de Barithael a fim de ampliar a efetividade das rotas comerciais. E tudo que chegava de Porto Nobre para o Sul sempre vinha com algo que Willian tinha um pouco de asco, usavam da topaíta como precursora da tecnologia.
Em pouco tempo, se ergueram pontes enormes que atravessavam os grandes rios de Barithael com cargas para o comércio com o Norte. E os mecanismos que levavam a locução daquelas cargas era sempre o mesmo: pistões movido a topaíta, que deslocavam as rodas da locomotiva e cruzavam todo o país com as cargas. Ademais, o grande asco de Willian se tornou ainda mais concreto pois a topáita era um mineral ácido e abundante, mas sua acidez era restrita às áreas de mineração da própria, pois seus fragmentos eram espalhados pelo ar e deixavam os arredores ácidos e ardentes. Com as locomotivas, indústrias e até as recém criadas armas de fogo, a acidez vinha tomando conta de Barithael e deixava algumas regiões mais pobres insalubres devido a acidez.
Willian vez ou outra visitara a periferia de Barithael para alguns estudos. Via em choque centenas de operários perderem os empregos para uma tuberculose suspeita, que incluía um muco sangrento, espesso e negro, além da dificuldade de sustentar a respiração. Quando conseguiu permissão para analisar o corpo de um dos supostos afastados por tuberculose, notou uma quantidade abundante de topaíta impregnada nos tecidos dos pulmões, traquéia e em alguns casos até no esôfago. Esse era o custo da urbanização industrial, como eles diziam. Mas ao menos Barithael havia enriquecido muito com as rotas comerciais.
Agora Willian andava no centro de Kalasch, que já era mais rico do que qualquer outra região que pisara no país desde então, mas ainda era imensuravelmente mais pobre do que a região que habitava em Barithael. E mesmo estando em uma região não tão rica, o ar parecia puro, sem aquela concentração de topaíta que via em regiões semelhantes de Barithael.
Willian apertou o passo e chegou ao portão principal da Universidade. Olhou por uma fração de segundo para o céu e viu que ambos os Sóis se posicionavam ao alto, mesmo que em lados opostos. Isso indicava que estava na metade do dia e o evento estava prestes a terminar.
Correu, segurando sua bolsa de couro com toda a papelada que precisaria. Adentrou o portão principal enquanto via alguns nobres saindo por aquele mesmo arco de pedra. Buscou um mapa dentro de seu bolsão e logo se localizou dentro do campus, correndo até a torre que ocorria o congresso. Willian àquela altura já rezava para divindades que ele não tinha certeza se acreditava.
Adentrou o salão do prédio depois de subir alguns degraus e sentir seu joelho latejar. Havia tomado alguns comprimidos – mais do que deveria – pois sabia que teria que correr, mas estava abusando de sua condição, seu flanco direito ardia muito conforme ofegava, mas ele poderia estar perdendo a chance de sua vida, portanto continuou a correr até chegar na sala do evento.
Willian então chegou. O salão estava quase vazio, somente dois professores jaziam no palanque e alguns interessados na platéia.
Willian precisava se sentar, fora a primeira coisa que pensou ao quase vomitar. Não costumava fazer exercícios devido aos vermes, muitas vezes a movimentação exacerbada desencadeava em crises e ele sabia que uma crise iria drenar a energia que poderia ser usada para uma nova tese. Willian sentou na primeira cadeira que vira, ao fundo, próxima à porta de entrada. Respirando fundo e limpando o suor da testa, ele abriu o bolsão. Depois procurou pela papelada, havia se desordenado conforme correra. Willian cochichou um palavrão.
Quando finalizou de organizar os papéis, ele ergueu os olhos e viu que os dois professores já haviam se retirado do palanque, mas antes de se desesperar, seus olhos percorreram todo o salão e avistaram um deles. Havia uma garota ao lado tinha chance de ser universitária, talvez realizando um trabalho ao acompanhar seu professor no evento, mas Willian duvidava um pouco. Eram raríssimas as mulheres aceitas em universidades.
Se ergueu da cadeira e andou timidamente até o professor, a garota e o estudioso. O professor e o estudioso ainda conversavam enquanto a garota anotava compulsivamente o que se era dito em um papel preso na prancheta. Então Willian se aproximou mais um pouco dos três até que o professor ignorou a última fala do homem à sua frente e virou os olhos para o intruso.
— Sim?
— Willian. Willian Veldorf — se apresentou — A qual dos professores me refiro? — ele fitou o professor, pálido como se estivesse morto, mas ao menos seu cabelo não era tão claro. Era num tom de castanho claro e seus olhos eram azuis, meio cinzentos.
— Professor Claus Obière — se apresentou. A garota olhava de um para o outro, mas Claus se dera conta de que ela parecia querer se enturmar naquele diálogo e lançava-lhe um olhar de nojo. Ela abaixou os olhos para a prancheta. — Diga-me, Veldorf, a que devo a honra?
Willian segurava a papelada na mão esquerda. Ele entregou-a ao professor, que ergueu uma sobrancelha e pegou a tese, folheando-a.
— O que insinua com isso? — Professor Claus indagou, ríspido.
— Acredito que possa ser promissor para a Universidade que considerem o projeto — explicou Willian — É minha maior tese e acredito que precise vê-la com calma…
— Rapaz, sinto em informar-lhe que não estamos oferecendo bolsas a projetos como… este — o professor dissera, continuava folheando o trabalho — Estudar mnyesas não me parece promissor no momento, até porque não vejo grandes inovações nisso.
Willian piscou algumas vezes, um pouco incrédulo das palavras que ouvia.
— Professor, acredito que deva reconsiderar suas palavras — dissera o quanto antes, vendo que Claus indicava que iria voltar a falar do assunto anterior com o outro homem — Essa pesquisa visa estudar a existência de uma substância regeneradora na mucosa dessa criatura. Se for comprovado, trata-se de uma inovação promissora, sim!
A garota ergueu os olhos por poucos segundos, depois abraçara a prancheta e olhara para os pés. O professor desdenhava da ideia através de suas feições.
— Mas como? Acha mesmo que deveríamos nos arriscar em estudar aquelas pragas? — ele deu uma risada um pouco forçada e o homem ao seu lado rira junto — Diga-me, o que levou-o a crer que mnyesas podem ter substâncias regeneradoras?
Willian fechou o semblante, havia se esquecido como era difícil lidar com teóricos vaidosos.
— Mnyesas são muito comuns em regiões abundantes em topaíta, senhor. — explicou, puxando paciência de seu peito — Quando dissequei uma, encontrei placas e mais placas dessa substância, endurecida, aparentemente serviam como forma de proteger a região e acelerar a cicatrização das feridas promovidas pela acidez do solo, devido ao mineral.
— Hum — ele grunhiu, mas não parecia sequer cogitar a pesquisa — Se quer mesmo uma bolsa para realizar esse estudo, indico que envie uma carta à Reitoria de Pesquisa e Ensino da Universidade. Eles poderão te indicar alguém disposto a financiar essa ideia. Mas se quer minha opinião, rapaz, acho pouco provável que chegue à alguma conclusão — ele fez uma pausa, parecia esperar que Willian consentisse — Mnyesas exigem ferramentas para serem estudadas. Ferramentas caras, não necessariamente substâncias ou frascos de vidro, mas pessoas dispostas a matá-las. É mais fácil matar um abutre do que uma mnyesa, se é que me entende.
Willian engoliu sua raiva de forma sonora e assentiu para o professor, indicando que se retiraria. Ele sentou-se em uma cadeira distante dos três e respirou fundo, sentindo sua pele queimar. Poderia ser o efeito dos analgésicos vacilando e ele não queria ter uma crise na frente de alguém como um professor da maior universidade do Sul.
Se dirigia à hospedaria em passos lentos. Percorria aquela mesmíssima feira de antes, mas agora não mais tão bela. Àquela hora, as hortaliças que jaziam nas barracas eram as que restaram, e estava murchas e feias.
Ele sentou-se em um banco na praça, com o pé esquerdo brincava com a neve no chão até que derretesse. Sua pesquisa teria de esperar mais algum tempo e isso era péssimo, fazia-no trancar a mandíbula com raiva da situação e de seu cocheiro perdido, mesmo que ele não tivesse culpa de fato.
Willian então acordou de seus devaneios autopiedosos ao sentir o calor de alguém sentando-se ao seu lado. Ele ergueu o queixo e viu a garota que antes escrevia para o Professor.
Willian cerrou as sobrancelhas, confuso. Ele via-na agora de um outro ângulo, antes via seu rosto de um ângulo da direita, agora ela sentava-se à sua esquerda e ele podia notar que seu rosto era levemente deformado naquele ângulo. Parecia fruto de uma ferida feia, talvez uma queimadura que deixou quelóides não tão discretos.
— Sim? — Willian olhou para a garota, ainda confuso. Ela não era tão pálida quanto seu professor, na verdade tinha a pele num tom levemente queimado de sol, como se uma bele branca, porém bronzeada, e repleta de melasmas, talvez até alguma falha genética que deixava seu tom de pele geometricamente irregular.
— Eu estava ouvindo sua ideia… Veldorf, certo? — ela se certificou.
— Isso. É raro que as pessoas me chamem pelo meu nome de família. — ele riu de maneira triste e viu que a garota parecia confusa. — Ah, longa história, longa demais para ser contada em um banco de praça — ele dissera e ela assentiu como se não quisesse entrar em detalhes. — Prossiga.
— Eu tive uma ideia — ela falou — Pode ser algo que deixe sua pesquisa mais atraente ao olhar de aristocratas egocêntricos.
Willian riu, depois pinçou o nariz, ainda sorrindo. Estou perdido! Agora a garota quer se enfiar na minha pesquisa!
— Sim?
— Preciso que conheça meu irmão. Assim será mais fácil de explicar — ela dissera, sua voz era doce e aguda, mas um pouco rouca, como se tivesse um pigarro impedindo-a de soar lisa.
— Claro, onde ele está? — Willian perguntou. Se tudo fosse como calculava, ela diria onde ele vivia e Willian responderia que faria uma visita a ele. Mas então não faria honra à sua palavra e persistiria com sua pesquisa intacta, certo?
— Ao Sul de Kalasch. Vamos para lá e depois voltamos aqui para solicitar a bolsa.
Foi então que Willian cerrou as sobrancelhas e arregalou os olhos, gesticulando abismado.
— Espere, você está sugerindo que fará parte da pesquisa? — investigou — Por mais tentadora que seja a sua proposta, não posso aceitá-la. A tese está inteira feita, não seria justo atribuir-lhe a pesquisa também.
A garota revirou os olhos de forma sutil, mas Willian reparou.
— Sua pesquisa está péssima no rigor kalaschiano. Claus fora até generoso em dizer que poderia tentar conseguir uma bolsa. — ela falou, convencida — E se quiser ser respeitado em Kalasch, o que será necessário para ter sua pesquisa aprovada, precisará falar o nosso idioma.
— Vocês não falam o idioma comum no meio acadêmico?
A garota dera uma risada genuína. Depois falou:
— Claro que não. Assim restringimos a informação em nosso país. Se algum outro lugar querer esse conhecimento, terá de traduzi-lo e deixar claro de onde veio o material — explicou, parecia debochar de tal pergunta idiota. — Se quer financiamento, fará a pesquisa nos nossos termos. Terá que falar nosso idioma. — Ela voltou a encarar Willian, que fazia bico. Mas ela não se comoveu. — Vamos para o Sul. E lá veremos meu irmão. Eu ensinar-te-ei o idioma local e você terá seu almejado financiamento. Correto?
— Ah, claro — ele debochou, cruzando os braços e logo se arrependendo ao sentir a pele pressionar a infecção em seus músculos — Sequer sei seu nome e você está sugerindo que eu aceite sua proposta.
— Natasha, prazer — ela se ergueu do banco, indicando com o queixo que Willian fizesse-o também — e eu não somente quero que aceite a minha proposta como você irá aceitá-la. — ela bateu as mãos uma na outra, tirando a neve das luvas e suspirando — Bem, vamos para o Sul amanhã.
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