Cento e Vinte Passos na Penumbra - Capítulo 1

O cheiro estava impregnado pelo quarto inteiro, o que não era difícil, visto que o quarto mais se parecia com um cárcere de tão pequeno quando comparado aos quartos que sempre tivera. Era um cheiro ardido, parecia incenso ou alguma erva queimada que não reconhecia, mas que era amarga e trazia consigo o cheiro de queimar.

Seus olhos se abriam lentamente, captando, de início, somente a luz das velas no canto do cômodo. Quando sua visão desembaçou, pôde ver através das cortinas grossas e marrons, que balançavam com a brisa gélida, um feixe da luz de Althara no céu. Uma brisa gélida adentrava o quarto, e Willian sentia-na em seu rosto somente, pois estava coberto até o pescoço. Com o vento gélido acariciando seu rosto, Willian finalmente acordou, mexia os dedos por debaixo das cobertas, antes formigantes e respirava fundo, como se acordasse de um sono profundo. Ele tomou coragem e abriu os olhos, vendo um rapaz acendendo mais velas no quarto em movimentos leves, alto, talvez mais alto que Willian. Quando virou a cabeça para olhar o arredor do quarto, viu um rapaz sentado na poltrona azul aveludada ao lado da cama.

O cheiro de queimar era estranho ao seu olfato, era gelado quando adentrava as narinas e parecia fazer sua garganta arranhar. Mas ele aos poucos fora interligando os fatos, não sentia a dor como sentia em sua pele e músculos, tão forte, ardente e bruta, sem pedir licença, e imaginou que aquela fumaça poderia servir de analgésico temporário, diminuir a dor crônica que lhe consumia há anos. O cheiro das ervas queimadas rodopiava pelo minúsculo quarto, atraído por sua respiração e pousando em seu rosto, junto à fumaça espiral, parecia trazer o alívio de sua dor.

Ele fixou os olhos no homem que acendia as velas, ainda zonzo.

— Sirien, ele acordou — falou o que jazia sentado na poltrona. Sua voz era leve e macia, andrógina, porém era perceptível que se tratava de um rapaz.

Willian respirou fundo mais uma vez e virou a cabeça de modo que pudesse olhar no rosto do rapaz. Era pálido, muito pálido, de uma maneira estranhamente kalaschiana e mórbida. Seus cabelos, assim como sua pele, eram finos e albinos, num platinado encaracolado e ardido conforme a luz da vela. Mas o que assustou Willian fora na verdade seus olhos opacos, como se cobertos por uma película branca que o proibissem de enxergar. Ele era cego. Então como poderia dizer que Willian acordou?

Retomando a consciência, Willian então decidiu olhar para o outro rapaz no quarto, que agora agitava a haste que usava para acender as velas e dava dois passos até a cama onde jazia o cientista. Vestia roupas de sacerdote, um robe comprido e azul escuro com uma faixa branca-rosada no centro, e tinha o rosto fino, liso como se realmente fosse esculpido por facas e paletas. Ele olhou para o homem debaixo das cobertas como se esperasse algo.

— Onde estou? — Willian perguntou, a voz soou rouca e sua visão ainda estava um pouco turva.

— Em um Templo da Sangria — respondeu o sacerdote, pousando as mãos sob o colo e fitando o cientista.

— No Distrito Sul — completou o rapaz cego.

Willian arregalou os olhos. Distrito Sul? Estava no Centro-Norte! Se ergueu da cama como quem acorda atrasado e logo notou que seu corpo desfalecia com tanto esforço, sentando-se na beirada sob as cobertas agora desarrumadas. De olhos arregalados, ele segurou os joelhos com força e respirou fundo.

— Sirien, a frequência — dissera o rapaz cego.

— Espere, Ofélio, está assustando o rapaz — respondera Sirien enquanto dava mais um passo em direção ao homem.

Willian estreitou os olhos como se afastasse o pensamento de derrota, cerrando o punho e o batendo com sutileza no joelho. Ele ergueu a cabeça e olhou para Sirien, buscando as palavras certas.

— Como chego na Universidade de Lexov? — ele perguntou, firme.

— Ah, um estudante! — Sirien arfou, surpreso.

— Cientista e doutor. — corrigiu Willian, vendo a expressão de Sirien ser consumida por asco, mas não ligou. — Como chego? — repetiu.

— Você está bem longe de Lexov — Ofélio dissera, suave — Bem longe mesmo.

Willian apertou os olhos com discrição. Começava a se estressar, não queria saber se estava perto ou longe, só queria saber como chegava lá.

— Quanto tempo? — perguntou.

— Bem, alguns dias — ele suspirou quando viu a feição de Willian desmanchar — Com o inverno tão mais rigoroso que o comum, talvez uma semana.

O cientista arqueou as sobrancelhas de forma sarcástica e suspirou com um sorriso forçado. Havia saído de Barithael com tempo o suficiente para chegar ao congresso e ter a chance de conhecer alguém que financiaria sua tese. Mas não sabia bem quanto tempo passou vagando nas dunas invernais ou quanto tempo perdera em coma no templo.

— Que dia é hoje? — ele perguntou, ainda sorrindo de forma histérica.

Sirien olhou para Ofélio e depois voltou a olhar para Willian. Ele estreitou os olhos pequenos e inclinados kalaschianos e cerrou as sobrancelhas como se calculasse a data, até que disse:

— Acredito que no décimo primeiro dia do Inverno Duplo-Solar — ele parecia convicto, mas olhou para Ofélio. — Certo, Ofélio? — se certificou, vendo o rapaz assentir de maneira leve e repetidas vezes. — O que você queria fazer em Lexov?

Willian apertou os lábios, mal humorado.

— Estou atrás de alguém para financiar minha pesquisa.

Sirien arregalou os olhos com surpresa, Ofélio, por sua vez, ficou boquiaberto. Ofélio arfou com um pouco de pena.

— E tinha uma data para estar lá, certo? — Ofélio averiguou.

— Sim. — respondeu, esfregando o pescoço conforme se movimentava. Willian aos poucos voltava a sentir sua pele arder, mas não tão intensamente — Dia décimo quarto do Inverno Duplo-Solar.

— Bem, você tem três dias. Se partir hoje e correr talvez chegue — Sirien falou, parecia indiferente. Mas Willian já havia notado naquela breve conversa que Sirien não tinha expressões tão maleáveis quanto Ofélio.

— Acha que consigo? — o cientista investigou, agora massageando o pulso esquerdo. Aquela fumaça estranha estava parando de fazer efeito.

— Pode tentar — Ofélio disse, e levantando da poltrona e procurando a guia apoiada no braço. — Podemos emprestar-lhe um cavalo e talvez um mapa. Acho que vai precisar — Ofélio deu risadinhas, levando o indicador ao queixo e sorrindo, mas parou quando Willian não respondeu. — Diga-me seu nome, cientista.

— Willian — respondeu.

Sirien se aproximou de Willian outra vez, pousando a mão em sua testa e depois estralando os dedos próximo de seus ouvidos, examinava sua audição, que permanecia intacta. Depois passeou com o dedo acima de seu nariz, movendo-o de um lado para o outro após pedir que Willian seguisse a movimentação com os olhos. Intacto também. O rapaz piscou algumas vezes e sorriu de forma controlada.

— Você está bem — ele dissera, segurou sua mão com força, ajudando-o a se erguer. — Kalasch costuma fazer isso com quase todos — complementou, dando um sorriso carinhoso. — Certamente consegue resistir ao frio com as ferramentas adequadas. Veio de… Vulcânia? — ele questionou, Willian sentava-se na beira cama, esfregando o rosto dolorido e xingando de dor ao raspar a unha em uma ferida na maçã do rosto.

— Não — Willian respondeu. — Vim de Barithael — sua voz estava rouca, o som proferido ardia em sua garganta, como um pigarro que impedia a voz de sair.

— Ah! Não tão longe quanto pensei.

Willian não sentiu raiva. Ele passava por isso o tempo inteiro. Vulcânia era um território mais ao norte, uma região ao Mediterrâneo, terra quente e árida, repleta de vulcões. Seu pai veio de Vulcânia, isso era fato, o formato de seus olhos, grandes e redondos, somado ao tom de sua pele, um marrom retinto, dava sempre a entender que era de lá por si só – sem contar a praga em seu corpo, que sequer dava a possibilidade de dúvida, mas Sirien ainda não havia visto a doença que lhe consumia. De todo modo, Willian havia nascido e crescido em Barithael e, embora convivesse com o frio, ainda sofria com ele, ainda mais em Kalasch, tão mais fria que qualquer outro lugar que havia pisado.

Estava vivo, mais uma vez. Conseguira vencer a morte mais aquele dia. E precisava fazer algo com isso, não havia tempo para se lamentar pela praga ou para se recuperar. Estava naquele templo de Lexov para deixar um legado. Alcançar seu sonho de ter seu nome em algo, de ser lembrado.

O rapaz continuava perseguindo-o com os olhos, avaliando cada movimento sutil que ele fazia. Ele empinou o queixo fino e dissera:

— Bem, — Sirien continuou, seus lábios estavam tortos conforme parecia estranhar a situação. — não tinha nenhuma universidade em Barithael?

Willian bufou. Ele sentia seu estômago roncar, mas ignorou a sensação, mesmo que não soubesse bem há quanto tempo havia comido. Desde que se contaminou, comer havia se tornado uma tarefa difícil visto que forçava sua musculatura do pescoço se mexer, mesmo que levemente. E isso doía, ardia muito.

— Digamos que minha pesquisa não foi bem aceita por lá — o cientista explicou, apoiando as mãos nos joelhos e jogando o peso do corpo sobre elas. — Barithael não é a terra do senso crítico, podemos dizer — ele inclinou a cabeça de um lado para o outro, como se balançasse os prós e contras do país.

— Ah, entendi — Ofélio falou, agitando a mão, enquanto apoiava a mão no ombro de Sirien com um pouco de dificuldade devido a sua altura. — Se quiser chegar a tempo, precisará sair agora.

— E precisará de roupas novas — Sirien olhou para Willian de cima a baixo com um olhar mesquinho — Rapaz, o que aconteceu com você. Ah, deixe para lá, você está com o tempo contado! Ande, levante-se e trarei roupas melhores.

Ofélio seguiu Sirien para fora do quarto, mas então parou de andar e se virou de abrupto, dizendo:

— Ah, já ia me esquecendo! — seu tom era meio abobado — Acredita na Sangria, Willian?

A Sangria tinha como princípio a humildade e gentileza entre irmãos, isto é, outros praticantes da fé de Kumaagala. O favor não era gratuito, nada era. Por isso, Willian respirou fundo e disse:

— Sim — embora ele não fosse o mais fidedigno praticante. Willian não praticava nada, pelo contrário, nutria aversão por certas superstições que acometiam Barithael.

— Bem, o café será servido ao som dos sinos — disse Sirien. — Compareça, imagino que esteja faminto — ele completou, se retirando do quarto e andando pelo corredor, seus passos ecoando.

Willian ajeitou-se na beirada da cama. Aguardou Sirien e Ofélio sairem de seu quarto e a porta ranger em seu fechar. Sua mão direita tremia de dor, sentindo aquela praga rastejando por debaixo de sua pele. Tirou a luva com cuidado e observou sua pele, a praga se alastrando de maneira lenta, porém ardente. Respirou fundo a fumaça ardida e que começava a se tornar escassa. Parecia que a cada respiração a dor diminuía.

Ele se ergueu com cuidado da cama e andou até um espelho próximo. Reparou que suas vestes realmente estavam péssimas, ensopadas e em alguns pontos rasgadas. Decidiu tirar o sobretudo e a blusa que cobria-lhe o pescoço, ali já pôde ver.

Percorrendo até quase sua mandíbula, a praga corria debaixo de sua pele, os vermes, crescentes, assíduos em se multiplicar e tomar seus músculos até sua morte, uma morte lenta e dolorosa. Seus olhos ardiam com a fumaça das ervas queimadas, mas a dor dos vermes estava amenizada, estável.

Um lado de seu corpo estava consumido pelos vermes-de-lava, chamados assim por sua ardência, pela corrosão provocada à pele. Ele olhou sua palma direita e observou o relevo geográfico ardente, os movimentos sutis, tão sutis que quase imperceptíveis. Puxava de leve a camiseta e via que o relevo se espalhava por seu braço inteiro, por seu tronco em partes e até o joelho direito, embora não fosse visível, por estarem cobertos pelas vestes, mas ainda doíam. Seu pescoço estava começando a ser atacado pelos vermes, podia-se vê-los como tentáculos rastejantes e infernais.



Quando os sinos soaram, Willian percorreu o templo com suas roupas novas e perdido. Andou alguns corredores, vendo a luz do amanhecer atravessar os vitrais azulados do templo esguio, seguindo o fluxo dos sacerdotes e auxiliares, mas sempre acabava se perdendo pois, aparentemente, os sinos indicavam não só o café, mas também diferentes rotinas.

Ele havia se perdido outra vez após seguir alguns funcionários. Então tomou coragem e se aproximou de um rapaz que andava rapidamente pelo templo, precisava ser orientado, buscar informações. Ele o chamou algumas vezes:

— Ei, moço — ele chamava, mas aparentemente era ignorado.

Ele seguiu o fluxo até um enorme salão de teto abobadado. Haviam oito vitrais, cada um em uma das faces do octógono que formava o salão, braseiros eram colocados estrategicamente próximos dos pilares que dividiam as faces do salão. O teto era repleto de detalhes meticulosamente esculpidose o chão era desenhado em ardósia e mármore com padrões claros e escuros alternados.

Willian olhou para todos os sacerdotes que ali jaziam, ajoelhados no chão, vestindo túnicas grossas de capuz escuros e largos. Eles permaneciam olhando para o chão enquanto a reza procedia, vinda de um homem alto e grisalho, de barbas longas e voz grave. Ele continuava a reza em algum idioma antigo, o qual Willian sequer entendia uma unidade de palavra apenas.

Ele sentiu algo puxar-lhe pelo braço com brutalidade. Poderia ser um simples gesto para qualquer outro, mas pressionar daquela forma seu braço fez-o gemer de dor até que, ao olhar para trás, viu Sirien soltar seu braço. O sacerdote indicou com a mão em concha que ele saísse do salão.

Os olhos de Willian percorreram o salão e viram Ofélio na ponta, facilmente reconhecido pelo cientista em meio aos sacerdotes devido aos seus olhos tão opacos e estranhos para Willian, embora não fossem novidade alguma para qualquer um do templo.

Sirien cansou-se de esperar pela atenção do cientista e puxou-o com força para fora do salão, fazendo-o quase cair.

— Período de kach'de. Eles não irão te responder — Sirien falou, cruzando os braços e notando a decepção no olhar do homem, somada à confusão, que emergia aos poucos.

— Não era… mês que vem que começava? — Willian indagou, parecia se dar conta da pergunta estúpida que havia feito quando viu o olhar de julgamento do sacerdote.

— Você deve ter perdido a noção do tempo em sua… caminhada — dissera ele, se virando e indicando com a mesma mão de antes que o seguisse pelo corredor.

Willian permaneceu parado por alguns instantes, suas sobrancelhas cerradas expressando um misto de confusão e indignação. Os olhares dos sacerdotes pousavam nele, mas não ousavam se fixar, sempre efêmeros, porém ainda desconfortáveis. Aquele silêncio após a reza o irritava.

Ele desviou o olhar para o chão, com vergonha da burrice que havia cometido. Respirou fundo, observava de cima a baixo o salão, via os pilares, o piso, os braseiros e até os vitrais. Era tudo tão belo, embora efêmero e isso o assustava, afinal, tudo aquilo que ele via não passava de matéria, de pedra em seus diferentes estágios da manufatura humana. Tudo que era feito estava fadado a ser destruído – e Willian tinha a crença que, embora deturpada, ele repetia a todo momento: Feito pelo humano, portanto, destruído pelo mesmo também.

Willian, sentindo o constrangimento esquentar suas bochechas, andou até um pilar e se apoiou nele, observando o fluxo dos sacerdotes, auxiliares e até viajantes. Precisava respirar um pouco, ainda sentia o puxão de Sirien em sua pele e ardia de forma feia. Seus olhos caíram para suas mãos enluvadas e logo pousaram em seus pés doloridos do dia anterior. Sirien continuava parado ao seu lado, esperando que Willian saísse do lugar.

— Estrangeiro, venha comigo — Sirien pediu dessa vez, sem puxões dolorosos. Talvez tivesse percebido que Willian sentia muito mais dor que a maioria das pessoas, mas isso não confortou o cientista, só o deixou mais ansioso. Tinha medo do que fariam caso descobrissem de sua sentença: as pragas.

Silente, seguiu-o pelos corredores frios e tingidos em um tom também lânguido de azul, variando de cianos à azuis profundos. A atmosfera monocromática do templo começava a irritar Willian também. Talvez Willian estivesse muito irritado e tudo ao seu redor era suficiente para desconcentrá-lo.

Caminharam até um salão menor que o anterior. Ali havia bancos simples e três mesas redondas, além de uma poltrona abaixo do vitral, que tinha um tom marrom, mas era tingida pela luz que variava de azuis à vinhos e carmesins do vitral. Sirien indicou que Willian se sentasse em um banco e andou até a bancada no canto da sala, trazendo uma vasilha de conteúdo alaranjado e fumegante. De lá, Willian já sentia o cheiro do caldo terroso, certamente produto de algum tubérculo, devido a sua textura cremosa que respingava da vasilha cheia, transbordando, conforme o andar de Sirien. Quando Sirien deixou-a sob a mesa, Willian pôde notar alguns cogumelos entre o caldo opaco, além de pequenas folhas verde-musgo, raízes e ervas.

— Refeição dos viajantes — disse apenas, antes de se afastar e pegar um copo de pedra sob a bancada, enchendo-o com a água de um jarro de vidro ornamentado. Ele andou até Willian novamente e deixou o copo ao lado da vasilha, parou ao seu lado, como se esperasse o primeiro gole do caldo.

Willian observou a vasilha e o copo, a fumaça subia tímida conforme o caldo esfriava. Olhou o conteúdo do copo e da vasilha, de um para outro, tentando averiguar o que transpassava aquele prato que parecia mais com terra e água com alguns cogumelos. Talvez fosse somente uma comida simples, honesta, que não lhe seria dada por mérito algum, mas por um sentimento de misericórdia. Tomou coragem e, com as duas mãos, pegou a base da vasilha e levou-a até os lábios, apreciando o calor que lhe alcançou os lábios em um toque singelo. Era ardido, talvez por conta das raízes que mastigava, depois bebendo mais um gole e mordiscando um cogumelo borrachudo. Sirien permanecia parado, observando com certa frieza até que Willian ergueu os olhos para ele.

Um momento de silêncio se deu, Willian voltou a beber o conteúdo da vasilha como quem não comia há dias. Era fato, ele estava com fome e não comia há dias.

— Fazia muito tempo que não frequentava os templos — comentou Willian. — Sequer me passou na cabeça que estávamos em período de Kach’de — Willian deu mais um gole no caldo quando notou que Sirien não respondê-lo-ia. — Por que você não está fazendo parte?

— Ah, quatro meses de silêncio, jejum e entrega não me caem bem. — brincou. — Participei do Kach’de ano passado e retrasado. Esse ano preferi me abster.

Willian assentiu, mastigando um cogumelo.

— Claro — dissera depois que engoliu. — Quando começou?

— Ontem — respondeu Sirien e apertou os lábios.

Então Sirien assentiu uma vez e de forma firme, se retirando da sala e deixando Willian a mercê de sua mente mais uma vez.



Willian voltou ao seu quarto, e quando chegou, a primeira coisa que fizera fora pegar seu caderno de capa de couro e sentar-se em uma cadeira próxima a quina do quarto, onde jazia uma mesa encostada. Deslizou o papel que guardava dentro das páginas do caderno. Depois, abriu as gavetas da mesa e avistou um lápis surrado, porém suficiente para o que planejava.

Abriu o caderno e vira seus desenhos. Dedicara até então alguns meses de estudo sobre algo que o fascinava: mnyesas.

Os desenhos se espalhavam pelo caderno, as criaturas semelhantes à centopéias gigantes que viviam em túneis na terra, ganhavam ilustrações de cada um de seus metâmeros e cada pata ou antena sua. Willian folheou as páginas enquanto se recordava de cada vez que tais animais foram trazidos mortos para que ele analisasse suas carcaças, seus exoesqueletos de placas quitinosas, suas forcípulas ou suas glândulas ventrais.

Ele olhou as anotações de semanas passadas, algumas ainda de quando estava em Barithael. Havia partido para Kalasch quando notou que somente as carcaças não seriam suficientes. Ele precisava vê-las vivas e em seu hábitat natural, em seus túneis em meio à topaíta que se liquidificava com o calor, ou então saber se elas eram quentes quando vivas.

Willian passou os dedos sobre os desenhos, sentindo o relevo de trás da folha como também da frente, desenhos nervosos de linhas marcadas pelo grafite pressionado com força. Tivera que aprender a escrever com a mão esquerda, já que sua direita estava consumida pelos vermes e doía para escrever ou desenhar e isso deixava os primeiros desenhos do caderno levemente distorcidos, trêmulos. Aquilo não passava de uma tentativa de entender aquelas criaturas que pareciam uma resposta a algo, vivendo debaixo da terra, aguardando por suas presas e possivelmente, guardando entre suas placas uma anestesia para a dor dos vermes.

Virou mais algumas páginas, buscando folhas livres para esboçar ideias, porém, seus olhos caíram em um desenho das glândulas ventrais da mnyesa, um órgão ocupado pela secreção viscosa que revestia o corpo do animal. Ele havia notado aquilo em todas as carcaças que teve acesso, uma glândula supostamente capaz de expelir substâncias que endurecera nas partes mais vulneráveis, supostamente dito já que Willian nunca conseguiu concluir se aquela substância era de fato expelida por tais glândulas e como ela era, mas estava certo de que mnyesas apresentavam algo semelhante a uma segunda carapaça somada a uma troca de pele, porém, com uma textura diferente da quitina que compunha as placas principais. E tudo aquilo o intrigava, principalmente sobre o que dizia respeito à resistência daquela segunda placa à corrosão da topaíta do solo.

Willian não sabia do que se tratava a acidez dos vermes-de-lava que habitavam sua pele como um bicho-geográfico porém ardido e quase que inteligente, capaz se de multiplicar tantas vezes que torna-se impossível uma vida sem eles, já que, embora fossem retirados periódicamente, os fragmentos deixados abaixo da pele sempre voltavam a crescer. Ele sabia que a praga se alimentava de seus tecidos, se penetrando entre o músculo e a pele, assim como sabia que em casos avançados, os vermes se alojavam em músculos mais interiores, como o miocárdio ou mesmo próximo ao fígado. E, embora Willian negasse com afinco, ele sabia que sua obsessão pelas mnyesas se dava por um sonho: o sonho de parar de sentir dor a cada movimento e, acima de tudo, deixar de ser visto como nojento ou repugnante pela sociedade.

Acreditava que naquela substância havia algum efeito cicatrizante e regenerador, algo que promovia alívio à ferida de topaíta, talvez até de eliminar aquela praga horrenda, pois certa vez, Willian deixara uma placa da secreção próxima do fogo que usara para incinerar os vermes retirados naquela noite. O resultado fora inesperado, a placa queimava e liberava um líquido espesso que parecia afastar os vermes que restaram do fogo, por algum motivo.

E talvez aquilo fosse a resposta, nenhum remédio mais surtia efeito como antes e a infecção sequer estava em seu estágio mais grave, entretanto, ardia. Ainda tinha crises vez ou outra, momento que não conseguia se mover da cama mas também não conseguia dormir, como também os banhos se tornavam dolorosos independentemente da temperatura e a vida tornava-se um martírio. Momentos este que Willian somente desejava a morte.

E ele sonhava pelo momento que a dor não seria mais um problema.

Willian puxou o caderno mais para perto da visão. Olhou para a janela e viu a luz dos Dois Sóis do lado de fora. Sirien dissera para aguardar até antes do almoço que então a temperatura estaria mais confortável. Lhe dera milhares de orientações sobre não percorrer com o cavalo durante a noite pois era perigoso e que ele deveria esperar o dia aquecer para voltar a percorrer o caminho. Também lhe mostrou alguns mapas e hospedarias para usar de referência ou então se acomodar quando necessário.

Seus olhos caíram sob uma escrita no caderno. Função regeneradora ou anestesiante?, escrito em garranchos. Tamborilando o lápis contra a página, seus olhos fixaram-se em algum ponto distante, que transcendia o físico pois olhava muito mais fundo do que aparentava ser somente o caderno.

— Para entender a secreção, preciso das mnyesas vivas... observar suas reações no ambiente natural... ver como enfrentam a topaíta em estado líquido... ver se há defesa ativa...

A ideia o excitava e o inquietava. Era perigoso. Ele sabia. As mnyesas não eram apenas um objeto de estudo; eram lendas vivas de Kalasch, temidas e respeitadas por sua letalidade.

Mas a dor pulsante em sua pele era um constante aviso de que não tinha tempo. Se havia algo a ser feito, precisava fazê-lo agora, antes que ficasse pior.

O que mais tinha a perder?

Fechou o caderno em um estalo seco, deixando-o sob a mesa. Ele ergueu-se da cadeira, sua perna direita latejante junto ao tronco. Caminhou até a janela embaçada do quarto, o vidro agora completamente fechado, mas ainda frio, embaçado, filtrava a luz seca e fria da manhã kalaschiana. Puxou a manga e esfregou o vidro, vendo através do pequeno espaço onde não jazia vapor o longe horizonte de neve manchada de poeira, topaíta e sujeira, além das formações rochosas. 

A ideia começava a se formar em sua mente. Financiado pela universidade de Lexov, teria as ferramentas necessárias. Mas as respostas estariam na terra, no frio e no ventre hostil de Kalasch. Aquele ciclo de dor poderia ter um fim.

Willian se afastou da janela e seus pensamentos foram interrompidos pelo som distante dos sinos do templo, mostrando que um novo ciclo se iniciaria, outra etapa do dia no templo. Ele sabia a verdade: Nenhuma conquista viria para ele sem um sacrifício.

Se o sacrifício seria sentir frio em tocas ácidas, Willian não se importava.

Precisava conseguir autorização, talvez financiamento ou ao menos alguma ajuda da Universidade. Talvez assim, e só talvez, pois ele tinha medo de criar expectativas, poderia transformar o pouco de vida que lhe restava no legado que ele tanto sonhava.


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