Cento e Oito Passos Na Penumbra - Capítulo 3

Era uma manhã um pouco mais quente do que as outras desde que acordou no templo. Isso era ótimo, por um lado, pois assim Willian não tremia de frio como tremeu nos últimos dias, mas era péssimo, por outro, uma vez que os vermes estavam menos contraídos e isso possibilitava que eles se movimentassem mais ardentemente sob sua pele.

Naquele momento, Willian cavalgava atrás de Natasha. Desde o templo, ele achou engraçado como os cavalos em Kalasch eram tão mais peludos e robustos, uma maneira que a evolução encontrou de manter a espécie naquele lugar que para muitos parecia inóspito. Ele seguia a garota por uma estrada de tijolos negros cobertos pela neve restante, que caíra sobre a estrada há pouco tempo e ainda não havia sido empurrada para os cantos. Para o crescido em Barithael, o caminho era um pouco sombrio. As árvores eram todas enormes e robustas, porém não tinham sequer uma folha. Além disso, sob a luz escassa daquele amanhecer, as árvores tinham uma madeira escura, quase preta, porém azulada. Em seus galhos cresciam fungos, cogumelos e briófitas, engraçadamente em com azuis negros ou esverdeadas, mas ainda escuras demais para sua natureza.

Além disso, o mais estranho eram as placas de metal penduradas em toda e qualquer árvore que se observava. Willian achava estranho mais esse fator também, toda árvore possuía pelo menos uma placa de metal e, aparentemente, ninguém havia cogitado roubar aquelas plaquinhas ainda.

Willian, como o cientista curioso que era, foi parando o cavalo. Queria ver do que se tratavam aquelas placas.

— Espere. — ele pediu, descendo do cavalo e espanando as roupas. Seus movimentos eram fracos e hesitantes, saltar de cima do cavalo lhe provocava dores.

— O que houve, Veldorf? — Natasha perguntou, virando o cavalo em sua direção e o observando andar até uma árvore.

O cientista estreitou os olhos, deslizando a mão sobre a placa mais alta da árvore negra e tétrica. Leu as informações, entalhados no metal.

— É um nome. — ele sibilou, descendo os olhos para a linha debaixo, e para a próxima placa então. Eram todos nomes kalaschianos. — Por que nomes em uma árvore? — questionou.

Natasha escondeu o revirar dos olhos e fez um bico cansado.

— Este lugar que estamos é o equivalente a um cemitério em Barithael. — explicou, descendo do cavalo , um pouco de dificuldade e andando até ele. — Em Kalasch, cada família tem uma árvore carniceira. Enterramos pessoas queridas próximas delas. Os nomes nas placas são dos mortos enterrados próximos.

Willian pareceu confuso.

— Mas a árvore não morre? — ele indagou, parando de ler as placas e erguendo o olhar para Natasha.

— Árvores carniceiras se nutrem de… carne. Precisam de cadáveres na terra para continuarem vivas.

Então a atmosfera ficou densa. Willian parecia ter se dado conta de que aquilo era de fato um cemitério. De alguma forma, ele entendia que aquela era a cultura kalaschiana, mas ainda julgava, mesmo que estivesse ciente de que em Barithael os corpos eram enterrados em caixões. Todas aqueles nomes nas placas das centenas de árvores eram pessoas mortas.

Willian engoliu a seco. A morte não era algo que ele gostava de pensar, isso lhe causava medo, lhe lembrava do incompreensível: o fim.

Ele olhou para o chão onde pisava, refletindo sobre quantos corpos não deviam ter apodrecido debaixo de seus pés. Faziam muitos anos desde que pisara em um cemitério pela última vez, tantos que ele sequer se lembrava de quando fora, talvez fosse criança demais para se lembrar da morte de algum avô ou tio. E quando mais alguém da família morria, ele não aparecia nos funerais e enterros, não por que não queria, mas porque seu corpo não aguentava aquela dor de saber que ele poderia ser o próximo a qualquer momento. Tudo aquilo, sociedades, prédios e sentimentos, se resumiam a carne e bastava um acidente e aquele seria seu último suspiro. Sociedades, prédios e sentimentos estavam fadados a acabar quando a carne apodrecesse.

Willian engoliu a seco e assentiu, subindo no cavalo novamente e indicando que eles voltassem a percorrer o caminho.


Willian continuou o percurso calado. Não que estivesse falando antes, na verdade Willian gostava de se considerar um homem de poucas palavras, mesmo que definitivamente não o fosse. Precisamos nos enganar, às vezes, certo?

Os dois haviam saído do cemitério fazia um bom tempo, mas a atmosfera ainda era pesada. Natasha tentava ensinar coisas básicas do idioma kalaschiano, mas Willian não parecia prestar atenção, compenetrado nos seus próprios pensamentos.

Ele segurava as rédeas com força, olhando para as mãos enluvadas. Aquele sentimento era horrível, mas ele viu Natasha atravessar o cemitério tão tranquila que ele se sentiu defeituoso. Ela não percebia que tudo teria um fim?

Continuaram cavalgando por horas, calados, até que Willian viu uma forma distante, triangular, no horizonte. Ele ergueu os olhos e apertou-os quando notou que sua vista estava embaçada. Ele cerrou as sobrancelhas, confuso.

Conforme se aproximavam, concluiu que suas suspeitas estavam corretas. Havia voltado para aquele mesmo Templo da Sangria de dias atrás. O formato era o mesmo, os vitrais e as montanhas ao horizonte eram os mesmos, poderia soar como loucura, mas Willian podia dizer que as dunas de gelo eram as mesmas.

Decidiu falar depois de longas horas calado:

— Seu irmão é sacerdote?

Natasha olhou para ele, rindo.

— Ah, não! Ele era como você, cientista.

— Por que estamos tão próximos de um templo então?

— Mas oras — ela começou, cavalgando um pouco mais devagar —, ele pode ser cientista e morar perto de um templo. — arfou de maneira visível mesmo que com os agasalhos densos kalaschianos — Ele estudava mnyesas. E aqui no Sul é onde está o maior ninho de Kalasch!

— Ah! — ele arfou interessado. — Isso é sério? — questionou. Parecia uma ironia de Destino que ele tivesse chegado ao maior ninho de mnyesas de Kalasch por acidente há alguns dias. E agora estivesse voltando para esse mesmo lugar.

— Seríssimo, doutor — ela falou — Se você quer estudar mnyesas, esse é o lugar ideal.

Willian piscou, incrédulo e com vontade de rir. Aquilo era uma coincidência enorme e isso lhe parecia engraçado.

Continuaram cavalgando por algum tempo, até o templo deixar de ser um borrão e então depois voltar a ser um borrão. Natasha continuou guiando-o até o vazio, o próprio cientista sequer entendia o porquê de estarem tão distantes das vilas, e agora tão distantes do templo.

Até que chegaram a uma depressão rochosa entre as dunas. Ainda havia muita neve, mas podia-se ver as rochas negras da parede do precipício onde pararam em frente. Não havia vegetação alguma naquele lugar, somente neve e mais neve durante o anoitecer. Willian já começava a se apavorar. Escuridão com uma estranha em um lugar deserto costumava resultar em situações terríveis.

Subiram um morro rochoso até o alto do precipício e lá Willian finalmente avistou algum sinal de vida sem ser a dele e de Natasha. Era uma cabana de pedra e madeira, algo incomum desde a Revolução Topaítica, que tornou as casas todas de heratitas e tijolos revestidos.

Natasha desceu do cavalo e sugeriu com o tivera que Willian também o fizesse.

— Por que tão isola…

Natasha o impediu de continuar, levando o indicador ao lábio e chiando. Ela agitou a mão em concha para que ele se aproximasse.

Willian o fez, suas sobrancelhas grossas cerradas como quem suspeita de algo.

— Aqui, nós só cochichamos.

— Mnyesas? — Willian questionou, confuso. Mnyesas costumavam se alocar em planícies, aquela região era claramente rochosa demais para que elas subissem rapidamente para atacá-los, talvez até rochosas demais para que elas conseguissem sentir a vibração de sua fala.

— Não exatamente.

Natasha andou até a cabana e abriu a porta com cuidado. Willian seguiu-a e então se deu conta de que aquele lugar só poderia estar abandonado. Era impossível que alguém vivesse ali, não havia uma luz sequer, uma lareira para esquentar quem quer que estivesse ali dentro, na quase escuridão daquele anoitecer.

Natasha abriu a bolsa e procurou por algo, tirando então o que parecia ser um graveto. Ela o quebrou e o ofereceu para o cientista.

— Masque. Vai dilatar as pupilas.

— Que? — ele questionou, precisava averiguar se ouvira aquilo mesmo, indignadamente confuso.

— Você vai entender.

Oh, céus, pela ciência!, ele pensava, pegando a parte que Natasha indicou do galho, ainda verde, viva. Ele colocou-a na boca e mordeu, sentindo um líquido amortecer sua língua. Continuou mordendo a planta até que sentiu uma sensação estranha nos olhos, apertando-os com o desconforto. Ele então abriu-os novamente e percebeu que enxergava melhor na escuridão, conseguia notar os objetos da casa levemente iluminados pela luz de Althara na janela.

Natasha assentiu como se verificasse se ele estava bem. Willian assentiu de volta e seguiu-a descendo as escadas íngremes da cabana.

Virando-se, ele saltou, boquiaberto.

— Este é Kharíin, Veldorf.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A Alta Fantasia e o Espelho Colonizado: Uma Reflexão Sobre Cultura Engessada e Produção Literária no Brasil

Cento e Oito Passos na Penumbra - Prólogo

Futuro