As Trevas de Cem Anos - Prólogo

Cada cicatriz em sua pele era grito que, em hipótese alguma, deveria ser ouvido. Ela sabia que já havia gritado demais e Thaddeus não toleraria mais gritos.

Ofegava e sua garganta agulhava ardidamente, se contorcia na cama tentando encontrar posições enquanto sua pele pulsava, cada pulso um gemido repreendido, já que sua garganta doía tanto que tornava quase impossível proferir sons. Haviam tantos cortes em sua pele, tantas jóias e peças implantadas como parte de seu corpo, sujas de sangue, pus e suor, de forma que nenhuma posição fosse a adequada, qualquer uma provocava-lhe dor abrupta e persistia, impedindo-a de dormir.

Como havia gritado! A cena ainda parecia presente em sua memória, mesmo após alguns dias desde a Incorporação; dias? ou será que foram apenas horas desde que aquele homem louco, Thaddeus, lhe arrancara as vestes e infiltrara-lhe as jóias em seu corpo? Não sabia, mas lembrava-se de como gritou, implorando para que parassem por um segundo para se recompor, bêbada, cansada, dissociando, mas ainda bloqueando e distorcendo sua consciência com Fenomenância, era necessário para que não morresse agonizando. Seria humilhante! Uma garota de talvez dezesseis ou dezessete anos tendo seu corpo segurado em meio ao próprio sangue e urina, consequência de tanta dor.

Ela gemeu só de se lembrar, se encolhendo na cama e logo se repreendendo quando sentiu a pele que envolvia as joias nas vértebras esticar. Estava encharcada, ainda suja de sangue, de forma que a cristalização carmesim se misturasse a suor e escorresse por seus ombros em um brilho que causava nojo. A garota decidiu, com seus dedos trêmulos, puxar a coberta áspera para baixo, já que, após a febre que lhe trouxe um frio insuportável, vinha um calor viril de um corpo cansado de lutar contra tantas feridas. Com cautela, empurrou a coberta para baixo, ofegante, gemendo de dor quando seu indicador perfurado roçou a coberta de pele enquanto a brisa fria alcançava as suas costas costuradas linearmente por cima da coluna vertebral. Os cortes pareciam intrínsecos, muito mais profundos, as joias foram implantadas entre sua pele e os ossos como pequenas protuberâncias e lhe provocavam tanta dor que almejava chorar, mas guardava para si, temendo que algum Sacerdote a visse.

Esforçou-se para encolher o corpo, fazendo-o pela primeira vez sem apertar os olhos devido à sensação pungente das agulhadas na pele. E, por baixo do sangue, suor e poeira, era evidente que sua pele era muito mais clara do que a da maioria que morrera antes naquele cômodo, todos gemendo de dor após a Incorporação, rezando para que eles sejam o trinta por cento dos dez incorporados. Seu corpo era miúdo e magrelo, sem músculos protuberantes treinava o físico arduamente para que sofresse menos com a Incorporação.

Abriu os olhos novamente em uma expressão visceral, dolorida em rever o momento que abriram um corte em sua nuca e enfiaram uma peça pontiaguda, seguida pela jóia entre a pele e o sangue. Não era a jóia mais dolorida, isso era fato, mas a garota se perguntava qual ela teria gritado mais; as joias de cada vértebra ou o prego que atravessava seu queixo, pregado debaixo de sua língua e fechado. Tinha gritado como nunca antes quando abriram sua boca e martelaram-lhe um prego, em seguida infiltrando uma haste de joia no buraco aberto enquanto gritava e engasgava-se com o próprio sangue.

Ela olhou para a entrada da sala, no templo de Lottal, e viu Dæsy, tentando murmurar algo, mas a dor de garganta a impediu. Mesmo sem dizer nada, Dæsy parecia saber o que ela falaria, se aproximando e parando ao seu lado. A garota piscou e ao abrir os olhos, notou que Dæsy não estava mais ali, mas, sim, o próprio Thaddeus, que verificava seus sinais vitais quando apertou seu braço procurando o pulso. Que idiota!, pensava enquanto fisgava os olhos tétricos no louco que, por sua vez, parecia impassível e indiferente.

— Oh!, persiste! — dissera o homem em um tom mal-humorado e com evidente coceira na garganta. E a garota também estava impressionada, se perguntava como persistia.

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