As Trevas de Cem Anos - Capítulo 2
Em terra onde do escravo alegria veste,
Propõe-se o triste legado da mordaça.
De uma garota que de nada é livre, nem celeste,
Que costura-se de couro, corte e desgraça.
BEATRIX
Observou através da janela do Hungrád os subúrbios, eram prédios relativamente altos, construídos tijolos por tijolos em tons alaranjados e beges sem uniformidade. Faziam desenhos inusitados e tortos, as ruas eram estreitas, naquela região eram poucas as estradas para carruagens pois estavam na periferia da Renali Imperial, próximos de Vulcânia, e Alaci, aquelas seriam talvez as províncias mais pobres de todo o Império Solar. Ademais, estavam em Damasqueira, uma província não tão pobre, não tão rica, embora a concentração das riquezas da província estivesse na mão de poucos. Pela janela ornamentada de arabescos e, ao alto, vitrais, contemplava alguns moleques brincando entre si, chutando uma bola de meia encardida de barro, alguns sem camisa, mas todos descalços, brincando, já que naqueles dias não houvera chuva ácida, algo raro em Damasqueira desde que as indústrias renalianas alcançaram a ilha dos damascos.
Se virou, descendo as escadas e chegando à sala central do hungrád, acendendo velas com o anoitecer. Um leve canto soava de outro cômodo, levando a garota a atentar os ouvidos e olhar de fininho, escondida atrás da parede. Amira segurava um bebê no colo e o ninava com amor enquanto cantava sussurrando. Amira era alguns anos mais velha que a garota e o gestor do hungrád havia perdido as esperanças de que ela seria vendida em algum momento, afinal, Amira era uma mulher corcunda e adoecida pelos vermes-de-lava, um mal que acometia os azarados que atravessavam desertos desprotegidos.
O gestor, chamado Ryan, logo propôs uma ideia do que seria feito: empregá-la-iam no hungrád como faziam com os demais escravizados que não eram comprados, afinal, poucos queriam cuidar das crianças escravizadas, de guerra ou não. Portanto, Amira tratava o bebê feito gente, cantando e ninando o pobrezinho, que desde tão cedo já vivia às margens da sociedade, fazendo o que ninguém queria fazer.
Quando atentou os ouvidos, encostando a têmpora esquerda na parede, ouviu uma melodia tétrica, o choro de desespero de um escravo.
— No Império da coroa dourada, onde o sol eterno resplandece
Governa o Filho-do-Sol em solo vil
No reino da chamas,
Que nunca queima ou adormece
O Messias de sangue dourado emergiu
Sob a luz do Segundo Sol reluzir
E em sua sombra o destino — a queda há de vir.
Oh, primeiro sol!
Oh, sangue dourado
No de inverno noturno lençol
O Império sente-se fraco!
Dores profundas trarão a lua cheia,
Gotas de ouro serão perdidas,
O povo descobrirá do destino a teia,
E dirá adeus às vidas falecidas.
Então, contar-lhe-ei,
o inverno veio com o luar
o luar veio com a noite
Portanto, responder-lhe-ei
O ouro, do povo, irá calar,
E rastejando, selará a foice
Do céu veio o feitiço, do feitiço nasceu o ouro,
Mas o ouro traz a ruína, sua dor arde no couro.
O breu avança o segundo solar
o inverno está por vir
Mulheres que aos céus podem levar
os falsos profetas que irão surgir.
A luz dos sóis já não resplandece
Gotas de ouro ao chão vão cair.
Perdas, fracassos e a lua enfraquece
quando o povo ao luar se erguer e insistir.
Há uma escada dourada,
que aos céus pode levar,
Onde Gaman aguarda,
para o Deus ancião nos guiar,
A lua contempla o ciclo que o sangue não pode romper,
no Império do fogo ardente, o inverno irá florescer.
Filhos da maldade do ouro, sede que o destino tragou,
Império que segue sob lamento, sob o brilho que sangrou.
E lá nos céus, o inverno se tornou real
Ele em sombra se guardou,
povo nobre, de mente leal
Mente jovem, sangue pobre que o feitiço amaldiçoou — cantava Amira, uma cantiga antiga a qual a garota já ouvia de outros escravizados, camponeses, operários e até mesmo funcionários do hungrád. Amira, sentindo o vento nos cabelos negros enquanto balançava-se na cadeira de balanço, segurava o bebê com ternura.
A garota decidiu se aproximar mais, ouvindo os sussurros de Amira ao bebê.
— Vida injusta, vida desgraçada — ela resmungava. Amira levou a mão até a boca, tossindo violentamente. Vendo de longe, notou que quando parou de tossir, sua mão estava suja de sangue e vermes.
Em um passo, a madeira do piso estralou e Amira se virou com brutalidade, revelando a pele irregular e ferida, com o relevo dos vermes que rastejavam por debaixo desta, provocando ardência, vermelhidão e hematomas.
— Beatrix?! — exclamou em um cochicho — O que faz aqui, garota? Sabe que se Ryan vê-la aqui ele vai te esfolar viva, certo?, deveria estar com as outras.
— Eu sei, mas gosto de ver o anoitecer no Segundo Rubrário.
— Começou hoje? — indagou Amira, surpresa. Ela se ergueu da cadeira de balanço, ficando de frente para Beatrix e a observando com talvez uns cinco dedos a menos de altura que a garota.
— Ontem, eu acho. Vi alguns homens falando disso há alguns dias — respondeu, vendo que a parasitose na pele da moça estava feia novamente. Vez ou outra, retiravam-se alguns vermes de dentro da pele através de pequenos cortes, mas alguns maiores conseguiam se enraizar nos músculos e se tornava quase impossível retirá-los sem cirurgia e, mesmo assim, retirando-os ou não, eles sempre voltavam em número maior e provocavam mais dor no infectado, pelo que se dizia. — Amira, você precisa tratar da infecção de novo. Está horrível.
— Nossa, se está horrível só de ver, imagine de sentir? — resmungou a mulher. Ela, ainda com a criança no colo, a contornou e andou em direção ao quarto das outras escravizadas no hungrád, pegando a mão de Beatrix e a puxando rapidamente, temendo que o gestor a visse descumprindo ordens sob sua tutela. — Venha logo ou Ryan irá se enfurecer.
— Mas Amira, você precisa tratar das feridas. Estão feias, deve estar sentindo dor — insistiu Beatrix, olhando para o relevo na mão da moça.
— Pouco provável que alguém me ajude a tratá-las. A garota que sabia fazer isso foi vendida, agora terei que encontrar outra pessoa. Mesmo se encontrasse, não teria dinheiro — respondeu Amira em um sussurro enquanto levava Beatrix pelo corredor.
Beatrix apertou a mão de Amira, ela parando de andar e as duas se observando.
— Eu posso tentar ajudar…
— Obrigada, Beatrix — interrompeu Amira — Você é uma boa menina. Pena que seja sulista, em algum momento vai acabar sendo vendida — dissera, olhando firmemente nos olhos de Beatrix. A verdade era clara para Beatrix, enquanto Amira estivesse suja e com a parasitose evidente, ninguém ousaria encostar nela com os fins que se encostava nas outras garotas, afinal, os meninos trazidos das regiões rebeldes, escravos de guerra, endividados, cinzentos ou mesmo alacianos eram todos vendidos ainda bebês ou crianças para que se adequassem ao modo de vida de sua classe antes de criar consciência e se rebelar. Já as meninas não eram vendidas tão cedo, o próprio hungrád as deixava crescer até o seios surgirem e os quadris ficarem largos, pois, assim, estariam mais tentados a comprá-las, cientes de suas capacidades reprodutivas, afinal, as que sangravam sem um ciclo certo ou que não tinham corpo para a gestação eram levadas para os haréns e bordéis enquanto as que eram dotadas de quadris largos e aparente boa capacidade reprodutiva eram compradas para gerar mais escravizados para casas ricas, serem amas de leite, aias, servas, afazeres relacionados à maternidade, mesmo que forçada. — Quantos anos tem? Catorze? — indagou Amira.
— Dezessete, eu acho. Se estamos no Segundo Rubrário, estou próxima de dezoito.
— Ah, em breve será vendida. Que Gaman te tenha, afinal, loira e tem olhos evidentemente sulistas, embora eles sejam… verdes? — indagou com um tom de afirmação, como se nunca tivesse reparado no tom dos olhos de Beatrix. — Você tem a aparência do sul, as casas ricas não gostam de bastardos com seus traços. Seria linda no sul, um tesouro.
O clima caiu como uma bigorna sobre os ombros de Beatrix.
— Não é nada, Amira. É só cabelo.
— Não é só isso, não — questionou Amira, voltando a andar pelo corredor. — Cabelos no tom do seu são raros por aqui, exóticos. Você será muito procurada quando… você sabe.
— Quando o quê? — indagou Beatrix, parando de andar e cruzando os braços — Quando forem me vender? — perguntou, escondendo o arrepio que percorreu seu corpo.
— Sim. Você é diferente, será muito valorizada em alguns serviços — disse. — Vai acabar como uma mulher sem decência.
— Hm — grunhiu.
Amira desceu as escadas, puxando a garota com alguma agressividade e a deixando junto às outras, algumas dormiam no chão, outras apoiadas na parede e a maioria não dormia. O cômodo era quente e pequeno, acumulava o calor do dia e fazia com que todas as garotas tivessem a pele brilhando a luz da vela do corredor pelo suor. Amira empurrou Beatrix dos degraus e fechou a porta, acabando com a luz. Beatrix engoliu a seco, pensava nas vezes que escapava do hungrád e apanhava em seguida.
Foi pensando em crueldades que dormiu desconfortavelmente devido ao calor e acordou quando a porta do pequeno cômodo se abriu, trazendo a luz de volta ao seus olhos e queimando-os por alguns segundos até se acostumarem.
Viu Ryan, um homem de meia-idade barbudo e gordo, a pele branca e os cabelos negros, indicar que as garotas saíssem do cômodo. Elas foram guiadas, comiam bem no café da manhã pois assim aparentavam saudáveis para a compra. Todo dia algum nobre surgia e comprava um, dois ou três órfãos para ajudar nas tarefas domésticas, braçais ou para seus bordéis. Haviam crianças pequenas, bebês, eunucos, adolescentes, moços e moças.
Naquele dia, levaram alguns órfãos, talvez cinco ou seis e todos meninos. O dia acabou e Beatrix continuava com a boca seca e um gosto ruim no paladar. Haviam talvez cinquenta e cinco ou sessenta órfãs em seu cômodo e era difícil monitorar todas, de forma que Beatrix vez ou outra conseguisse fugir incendiando algo, quebrando pratos discretamente ou nas vezes que era levada ao mercado central junto às outras em busca de compradores.
Vestindo trapos rasgados, algumas faixas que deixavam expostas algumas partes de seu corpo para atrair compradores, viu o mesmo moleque chutando a meia para o outro em meio às poças barrentas. O garoto se aproximou dela um ou dois passos, ainda distante, observando seus olhos estreitos como os olhos sulistas e verdes como eram os olhos da nobreza. Ele a observava fixamente, quando notou, Beatrix retribuiu o olhar, vendo o garoto sujo, com um gorro cinzento e um macacão imundo de ferrugem e pó de carvão. O garoto sabia que não podia se aproximar, por isso, ele somente a observava. Beatrix sonhou por poucos segundos, sonhou acordada pela liberdade e pelo controle das rédeas.
Pôde então sentir uma vibração, seu coração oscilou, não era amor, não se engane, leitor, era medo, pavor. Sentia algo além do que aquilo que via.
Beatrix sentiu um enxame tomar seu peito, sentia a urgência de correr para dentro do hungrád. O garoto olhou para ela enquanto cuidava dos porcos e cuspiu no chão.
Continuou os afazeres quando sentiu algo bater em sua cabeça em um choque, um galho. Rangeu os dentes e olhou para o moleque, furiosa, as sobrancelhas cerradas e a mandíbula contraída, que deixou os lábios entreabertos e saiu correndo.
Suspirou, apertando os lábios. Virou os olhos para dentro do estábulo ao ouvir a velha berrar seu nome e sua visão recaiu na quina do cômodo. Viu uma garotinha miúda de cabelos castanhos encaracolados e curtos. Ela desenhava com o indicador na terra arenosa e seu vestido estava empoeirado.
— Thalita, já disse uma vez — a velha supervisora começou, o tom de voz rígido — Não próxima vez que te ver com a roupa suja de barro, irá apanhar.
Ao puxá-la em direção ao Hungrád, Thalita, tão criancinha, escorregou ao virar o tornozelo. Seus lábios tremeram quando viu seu joelho sangrar, mas Thalita, criada naquele ambiente, não ousou chorar, olhando para Beatrix enquanto era arrastada para dentro.
Talvez não tivessem notado o ralado no joelho, até porque, entardecia, e Beatrix ao voltar para o hungrád, viu que Thalita jazia sentada no divã amuada e com as pernas encolhidas, como se escondesse a ferida. Sentou-se ao lado da garota e suspirou, pegando seu joelho e limpando a ferida com o interior da borda do vestido bege que vestia.
Beatrix jogou a cabeça para trás, olhando para o teto e depois para o chão. Quando seus olhos admiravam os azulejos do piso, finalmente se deram conta da luz dos vitrais que recaía dentro do hungrád. Sua visão estava quase sempre embaçada e cansada, mas ver a luz dos vitrais parecia amenizar aquela dor nos olhos.
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