As Trevas de Cem Anos - Capítulo 1
PARTE UM
MULHERES SEM NOME
Em terra vil eu almejo
Por justa injúria e lei, sã e cega,
Fim desse descontentamento
és tudo o que desejo.
Oh!, cessar da alma o árido tormento.
Leva contigo a cobiça fugaz,
E em troca, vida eterna prometo;
Comigo firme, em veracidade e paz,
O que desejo, em rima tétrica, completo.
Do querer em ânsia e da ambição,
Persisto em busca do alento
que cura a fria dor da solidão,
De se viver a poeira do fragmento.
MELIRAH
Naquele amanhecer, o cheiro da praça era diferente do costume; misturavam-se as fragrâncias dos pães recém assados em fornos quentes e o odor típico e metálico do sangue fresco. O sangue se acumulava entre as juntas dos paralelepípedos de pedra em um desenho bruto, havia espirrado quando a lâmina da guilhotina desceu em um silvo limpo e decepou a cabeça escalpelada do espião.
Os kalaschianos do distrito se amontoavam em torno do palanque da praça pública e testemunharam o rolar tímido da cabeça caindo no chão e lá fazendo uma poça carmesim. Desde o avanço dos Dymond ao leste de Kalasch, tornou-se cada vez mais comum execuções como aquelas, afinal, se tinha algo que a Armada Branca odiava mais do que seus norandellenses, eram os delatores que levavam informações aos norandellenses. Suas cabeças eram cortadas para que os sobreviventes da nação kalaschiana temessem se envolver com aquela gente imunda e ter a sua cabeça rolando pelo chão.
Eles olhavam o próximo prisioneiro ser arrastado, ele implorava – Por favor!, eu estava sob ordens! – em gritos pavorosos enquanto tinha sua cabeça presa à base da guilhotina e mais um silvo limpo previa a cabeça rolando. Em menos de um minuto, aquele rapaz atravessou a ponte da vida e chegou à morte sem nem ao menos as últimas palavras, senão suas súplicas por sua vida, tamanha covardia!
E, bem, evidentemente, mesmo sem se importar com quantos espiões foram flagrados dessa vez, havia uma garota em específico no meio da multidão, na ponta dos pés para enxergar o próximo a morrer, já que seu tamanho miúdo, tanto vertical quanto de massa corpórea, o que a dava uma aparência raquítica e magrela, não favorecia sua visão. Os ventos ásperos de Umbria puxaram seu capuz, revelando cabelos negros como obsidiana e lisos como fios de prata, soltos, longos e oleosos, caindo por seus ombros em tranças murchas com miçangas e alguns adereços simbólicos, tal qual um apanhador de sonhos, tranças finas no meio da trança principal, argolas, pingentes e contas com símbolos religiosos grafados.
Ela passeava pela vila naquele amanhecer pois hensy lhe pediu para pegar alguns pães, não era intencional que visse mais um kalaschiano morrer, embora vê-lo contemplar a morte de maneira tão covarde lhe era satisfatório. Malditos. E a Cidade dos Ventos, razoavelmente distante de Lexov, distrito dos comerciantes, não era pequena, mas também não era enorme, barrada pelos muros altos de tijolos negros sujos. Tudo que acontecia na Cidade dos Ventos ficava entre eles, nunca haviam rostos novos ou novidades, somente um templo da Sangria e várias áreas de plantio. Os aldeões saíam somente para plantar, e então voltavam à sua vida pacata, faziam os pães favoritos da garota, redondos e macios, conversavam e procriavam.
Nada mudava, nunca havia nenhuma novidade senão aquelas que a garota não suportava. Não havia ninguém com a sua idade naquela vila, ou melhor dizendo, até haviam, mas ela não tinha vontade de interagir com eles, a menos que se tratasse da troca em admirar a beleza dos corpos, mas fora isso, nunca se interessou, o que a fazia conversar com os mais velhos pois os mais novos a irritavam com sua energia e gritaria.
O último delator teve a vida ceifada e os aldeões começaram a se afastar do palanque, voltando às suas atividades normais. E a garota foi até a padaria, sentindo o cheiro quente e doce da culinária atingir seu olfato.
Ela abriu a porta e um sino soou dentro do pequeno estabelecimento, quente, tinha algumas poucas mesas espalhadas e em um cômodo fechado à direita, jazia um homem gordo e calvo, tinha um semblante simpático e tranquilo enquanto tirava mais uma leva de pães.
A garota acenou de leve, somente para o padeiro notá-la.
— Mei! Veio buscar o de sempre? — perguntou o homem, andando até ela e se apoiando na bancada.
Mei. Era esse seu apelido. Mei significava “graveto” no idioma ali falado, começou ser chamada assim quando notaram que ela não cresceria mais e que continuaria sendo uma garota magrela e baixinha o resto de sua vida. Ela tinha de olhar para cima para que seus olhos se encontrassem com o semblante do padeiro.
— Sim, senhor — ela disse, balançava de um lado para o outro enquanto olhava os pães recém-feitos.
— Como está Dæsy? E a Sangria?
Mei divagou um pouco antes de responder. Duas perguntas numa frase só costumavam embaralhar na sua cabeça na hora de responder.
— Hensy está bem! — ela respondeu, parando de balançar de um lado para o outro e olhando o padeiro enquanto beliscava os próprios dedos — Dæsy diz que o último que fez a Sangria está com o pé na cova mas acho que ele vai durar mais um bom tempo, aparentemente é muito apegado a reclamar. Almas que reclamam muito demoram para descolar da carne, estão presas demais neste mundo, a própria Dæsy me disse isso, uma vez. — Mei olhava para os quadros na parede quando o reflexo de um deles lhe induziu um pensamento: — Conseguiu ver a execução daqui?
— Sim, sim. Três! Três delatores de uma vez! Eu gostaria de saber o que tanto os norandellenses oferecem para que três dos nossos se submetam a esse risco — ele falou, então se virou, colocou as luvas grossas e tirou mais alguns pães do forno.
— Lamentável mesmo — Mei dissera, se apoiando na bancada.
O padeiro andou para o outro lado da cozinha, sumindo por alguns segundos e trazendo uma cesta. Encheu-na de pães e andou até Mei, entregando-a.
— Sabe o combinado, não é? Me devolva a cesta assim que terminar — o homem falou, dando um sorrisinho amigo.
— Claro, claro.
A conversa fora interrompida quando Mei e o padeiro ouviram o sino da porta tocar com sua abertura. Mei se virou e viu quatro rapazes adentrarem a padaria. Ela os conhecia, os quatro eram membros da Armada e saíam dos arredores para caçar. Vez ou outra, voltavam com algum presente para Mei, provavelmente em troca das noites em que a garota cedia seu corpo.
O mais alto andou até o centro da padaria e se sentou em uma banqueta, parando ao lado de Mei, que continuava de pé. Ele sorriu para ela e ela somente piscou como resposta.
— Trouxemos presentes para você.
Então Mei sorriu.
Um dos rapazes andou até ela, carregava no ombro algo embrulhado em um enorme tecido encardido. Ele jogou o que carregava no chão e desenrolou aos poucos enquanto Mei não tirava os olhos do que poderia ser aquilo.
Quando terminou de desenrolar, os olhos verdes como malaquitas de Mei brilharam.
Uma carcaça de mnyesa filhote.
Ela sorriu enquanto mordia o lábio inferior, agachando-se para olhar a enorme criatura centipeda, semelhante a uma centopeia negra gigante, porém com o corpo misturado os metâmeros quitinosos intercalados.
Luel era o nome do rapaz. Tinha dezoito ou dezenove anos e era um dos rapazes mais assíduos dentro da vila depois de alguns acidentes que o obrigaram a servir à gangue. Conversava com a Armada e vivia em missões, roubando depósitos de gangues e rebeldes.
— Se divirta — Luel dissera, olhando-a de cima do banco, admirada.
— Obrigada — ela murmurou, mexendo na carcaça morta, vendo que as glândulas ventrais, as forcípulas e os metâmeros eram todos novos, em desenvolvimento. — Farei bom proveito — ela deu um sorriso apertado, se virando para ele, mostrava de leve a gengiva e um pouco dos dentes.
Enquanto Mei examinava a carcaça, mexendo em seus pés pontudos e analisando a viscosidade de suas secreções, escutava Luel e o padeiro conversarem.
— Como foi a caça, jovem? — o padeiro indagou, apoiando-se novamente na bancada. Ele viu Luel pegar um pão da cesta de Mei e levar aos lábios, mordendo sem discrição.
De boca cheia, Luel respondeu:
— Estranha. Vimos witskis.
Os olhos de Mei brilharam ainda mais, virou-se de supetão para ele, embasbacada.
— Witskis? — ela averiguou, encantada, esperava que Luel tivesse uma carcaça do animal também.
— Ah, Melirah, não conseguimos matar nenhum.
Mei murchou. Não sabia se murchou mais ao ouvir seu nome completo, sem ser o apelido, ou se foi quando percebeu que não poderia finalmente dissecar witskis. Ela só tinha certeza de que odiava quando chamavam-na pelo nome que lhe foi atribuído quando Vulcânia foi conquistada. Melirah, nome asqueroso e renaliano, ela pensava. Preferia ser chamada de graveto a ser chamada de Melirah, nome o qual ouvira de Khalil que significava “benevolência” Mei sequer era benevolente.
Não ligou, voltou a mexer no centipeda, virando-o para ver suas glândulas ventrais. Ela continuou escutando a conversa:
— Estamos preocupados. Witskis não costumam ir tão alto. Foram atraídos por algum massacre — Luel continuou.
Mei sequer percebia que pensava nisso, mas pensava. Gostava muito de ler livros de anatomia animal, estudava-os e decorava-os após dias os relendo várias e várias vezes. Isso era suficiente para saber que witskis eram atraídos pelo cheiro de sangue. A presença de tais criaturas, semelhantes a abutres, porém de bico mais laminado e com a visão de um gavião, indicava que o Império Noturno vinha expandindo seu domínio ao leste, onde jazia a Cidade dos Ventos, beirando as montanhas que separavam Kalasch de reinos vizinhos.
A guerra não era um problema tão grave para aqueles aldeões. Isolados da civilização kalaschiana central ou urbana, viviam de sua própria produção para o consumo e estavam sob proteção da Armada, que alcançara a região fazia pouco tempo.
Eles continuaram conversando e Mei se cansou do espaço apertado entre as mesas. Enrolou a carcaça no tecido novamente e isso indicou que ia se retirar, arrastando o centipeda pois sequer tinha força para carregá-lo. Abriu a porta e, quando estava se retirando, ouviu o padeiro:
— Os pães, Mei!
Ela arfou, voltando. Ainda arrastava a carcaça, pegou a cesta com uma mão, jogou o enorme centipeda no ombro e, devido à sua baixa estatura, continuou arrastando-o pelo chão.
Ela se despediu rapidamente e andou pela vila, deixando marcas na neve do animal sendo arrastado e escorrendo sua mucosa negra ou pálida, gosmenta sob a neve e umedecendo o tecido. Fez uma careta ao sentir os dedos enluvados cobertos daquela viscosidade, mas não ligou.
Depois de andar por alguns minutos, sentindo o ombro doer e a mão pesar segurando a cesta, ela chegou ao portão do templo. Ele era alto, mas não era enorme. Eram duas torres interligadas e um pátio no centro. Havia também alguns pequenos cômodos espalhados, feitos grudados com o enorme morro do canto da vila. Sem contar que o templo tinha compartimentos subterrâneos, então se estendia muito além daquela aparentemente pequena construção. Os portões eram enormes e de pontas triangulares e havia um jardim aos lados das escadas sinuosas de pedra irregular. Ela segurou a aldraba e a bateu, de prontidão, o portão se abriu.
Sua hensy aparecera à sua frente, alta, magrela. Ela era albina, como quase todo kalaschiano, e seus cabelos eram cachos brancos luminescentes, assim como seus olhos que, devido ao albinismo, tinham um tom cinzento, quase puxado para o violeta. Dæsy fez uma careta ao notar que Mei arrastava um pano encardido e com manchas de umidade, deixando rastros na neve e na escadaria.
— É o que estou pensando? — Dæsy indagou, enojada. — Outro animal nojento?
— Foi Luel quem me deu — Mei respondeu, dando de ombros. — É uma mnyesa — ela deu risadinhas estranhas, empolgada com a carcaça.
Dæsy arregalou os olhos, empurrando seu ombro para que entrasse com os pães. E Mei o fez, ouvindo os portões fecharem num estalo enquanto arrastava o animal rapidamente para não ficar entre as portas.
— Deixe isso na estufa. Vai feder — a hensy reclamava, olhando com nojo. Mei assentiu, correndo enquanto ainda arrastava o bicho, seguindo o corredor até o pátio, onde ficava a estufa. — Depois — Dæsy pegou seu braço com força e ela se virou. — Khalil me disse algumas coisas. Acredito que queira saber.
Mei abriu os olhos e fitou o semblante da mãe, o olhar fixo. A garota sempre tinha os olhos agitados, observando tudo freneticamente. Tinha de se concentrar muito para fitar algo.
— Sim?
— Vá falar com ele — Dæsy dissera, tentando evitar olhar para a mnyesa em seu ombro.
— Claro.
Depois de deixar a mnyesa na estufa, Mei voltou ao interior do templo e parou em frente à porta do quarto de Khalil. Segurou a aldraba e bateu-a duas vezes.
O homem apareceu, entreabrindo a porta ainda presa pela correntinha da fechadura e vendo Mei. Ele deu um sorriso ao vê-la, fechou a porta e a abriu novamente, dessa vez, sem a corrente.
Mei entrou no quarto, seguindo o alaciano. Sua pele era negra, seus cabelos raspados nas laterais e trançados no alto. Entrava pouca luz no quarto, mas era o suficiente para Mei notar seus olhos cor de mel. Ele se sentou no pé da cama e Mei em uma poltrona, os dois se olhando por alguns segundos.
— Hensy me disse que tínhamos que conversar — ela falou, os olhos percorrendo todo o quarto. Havia uma pequena mesa irradiada pela luz do Sol Safírio pela pequena e alta janela. Nela haviam colares, pulseiras e pedras preciosas, além de algumas drusas de ametista. Ela voltou a olhar Khalil. — O quê é? Você matou alguém ou eu devo me preocupar? — ela brincou, sorrindo de canto, de maneira malandra.
Khalil revirou os olhos com humor. O homem respirou fundo, parecia lamentar algo.
— Pretendo voltar ao mediterrâneo, Mei — ele falou, sua voz foi densa. Ele viu que o semblante irônico de Mei desapareceu e foi substituído por uma expressão mais séria. Ela parecia exigir com os olhos somente uma explicação, incapaz de verbalizar aquela necessidade. — Fiquei sabendo de uma organização. Quero me integrar a ela.
Mei cerrou as sobrancelhas, confusa.
— Mas… por quê? — ela entreabriu os lábios, deixando exposto o dente quebrado, que acompanha os dois da frente e os caninos afiados ao lado. Olhou as mãos e então voltou a olhá-lo — Você sempre conta que quase morreu na Confraria de Alaci. Por quê correr esse risco de novo?
Khalil suspirou pesado. Ele sabia que era tão importante para a garota quanto Dæsy, embora tenha sido Dæsy a encarregada de sua criação.
— Talvez não entenda agora, Mei — ele começou —, mas você vai entender. Por que você é de lá também, nasceu em Vulcânia. Não há nada que grite dentro de você para que conheça a vida fora da vila?
Mei piscou, sem saber o que responder.
— Quando comprei você e os outros… — ele voltou a falar — eu não imaginei o quanto eu ia me afeiçoar por cada um de vocês. Tanto você quanto pelos... outros. São todos como filhos para mim.
Os outros. Mei sentiu seu estômago revirar. Não gostava de se lembrar do que aconteceu quando viviam no Vale Carmesim.
— E vai nos deixar assim? — ela indagou, sua expressão suplicava por uma explicação que não envolvesse o próprio ego do alaciano.
— Você já estão pronta para seguir suas jornadas, aqui ou lá fora — ele disse — eu também tenho uma jornada, um propósito de vida. Recentemente, fiquei sabendo que há uma nova rebelião em Damasqueira, eles pretendem investigar o delator por trás da queda de Alaci. E eu almejo mais do que qualquer coisa que Ulisses Trev pague por seus pecados.
— Vingança? — Mei questionou.
— Justiça.
Um silêncio se deu entre os dois, desconfortável. Mei olhava para a janela alta do quarto, observando os raios de luz atingirem a poeira no ar.
— Quando pretende ir?
— Daqui há duas semanas — ele respondeu. Então pareceu se preparar para dizer algo, apertando os joelhos. — Você pode vir comigo, Mei.
Ela arregalou os olhos com uma surpresa indignada.
— O quê? E deixar para trás a Sangria? — Mei pareceu indignada, como se tivesse ouvido a maior das blasfêmias — Não, não, Khalil.
— Deixar para trás o que aconteceu aqui. Ou no Vale Carmesim — Khalil falou, mas parecia hesitante, ele sabia que tudo o que havia acontecido há alguns anos agora era tabu. Ninguém falava mais sobre.
A expressão de Mei logo se alterou radicalmente. De uma inocência tola para uma fúria pirracenta, ela cerrou as sobrancelhas e olhou para os joelhos, mordendo o interior do lábio.
— Eu não posso deixar Dæsy para trás. — Foi o que conseguiu dizer.
Khalil suspirou, pousando as mãos no colo.
— Ela não vai te perdoar, Melirah — ele cochichou. Fez uma pausa quando Mei puxando os olhos com fúria para ele, trêmulos, mas ainda fixos em seu semblante — Drusilla está morta. Você se amarrar a Dæsy não vai mudar isso.
Mei engoliu a seco, grunhindo palavrões.
— Dæsy nunca vai me perdoar se eu não estiver aqui, se não puder demonstrar que mereço o perdão dela — falou, sua voz tremia e ela cerrava os olhos por alguns segundos.
Khalil suspirava mais uma vez, cansado, talvez até desinteressado.
— É sua escolha, Mei — Khalil disse, se erguendo do pé da cama e andando até a porta, indicando-a para a garota. — Tenho coisas a se fazer. Até mais, Mei.
Ela apertou o lábio, não sabia o que sentia, mas sabia que não era um sentimento confortável.
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