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Mostrando postagens de maio, 2026

As Trevas de Cem Anos - Capítulo 2

Em terra onde do escravo alegria veste, Propõe-se o triste legado da mordaça. De uma garota que de nada é livre, nem celeste, Que costura-se de couro, corte e desgraça. BEATRIX Observou através da janela do Hungrád os subúrbios, eram prédios relativamente altos, construídos tijolos por tijolos em tons alaranjados e beges sem uniformidade. Faziam desenhos inusitados e tortos, as ruas eram estreitas, naquela região eram poucas as estradas para carruagens pois estavam na periferia da Renali Imperial, próximos de Vulcânia, e Alaci, aquelas seriam talvez as províncias mais pobres de todo o Império Solar. Ademais, estavam em Damasqueira, uma província não tão pobre, não tão rica, embora a concentração das riquezas da província estivesse na mão de poucos. Pela janela ornamentada de arabescos e, ao alto, vitrais, contemplava alguns moleques brincando entre si, chutando uma bola de meia encardida de barro, alguns sem camisa, mas todos descalços, brincando, já que naqueles dias não houvera chuv...

As Trevas de Cem Anos - Capítulo 1

PARTE UM MULHERES SEM NOME Em terra vil eu almejo Por justa injúria e lei, sã e cega, Fim desse descontentamento és tudo o que desejo. Oh!, cessar da alma o árido tormento. Leva contigo a cobiça fugaz, E em troca, vida eterna prometo; Comigo firme, em veracidade e paz, O que desejo, em rima tétrica, completo. Do querer em ânsia e da ambição, Persisto em busca do alento que cura a fria dor da solidão, De se viver a poeira do fragmento. MELIRAH Naquele amanhecer, o cheiro da praça era diferente do costume; misturavam-se as fragrâncias dos pães recém assados em fornos quentes e o odor típico e metálico do sangue fresco. O sangue se acumulava entre as juntas dos paralelepípedos de pedra em um desenho bruto, havia espirrado quando a lâmina da guilhotina desceu em um silvo limpo e decepou a cabeça escalpelada do espião. Os kalaschianos do distrito se amontoavam em torno do palanque da praça pública e testemunharam o rolar tímido da cabeça caindo no chão e lá fazendo uma poça carmesim. Desde ...

As Trevas de Cem Anos - Prólogo

Cada cicatriz em sua pele era grito que, em hipótese alguma, deveria ser ouvido. Ela sabia que já havia gritado demais e Thaddeus não toleraria mais gritos. Ofegava e sua garganta agulhava ardidamente, se contorcia na cama tentando encontrar posições enquanto sua pele pulsava, cada pulso um gemido repreendido, já que sua garganta doía tanto que tornava quase impossível proferir sons. Haviam tantos cortes em sua pele, tantas jóias e peças implantadas como parte de seu corpo, sujas de sangue, pus e suor, de forma que nenhuma posição fosse a adequada, qualquer uma provocava-lhe dor abrupta e persistia, impedindo-a de dormir. Como havia gritado! A cena ainda parecia presente em sua memória, mesmo após alguns dias desde a Incorporação; dias? ou será que foram apenas horas desde que aquele homem louco, Thaddeus, lhe arrancara as vestes e infiltrara-lhe as jóias em seu corpo? Não sabia, mas lembrava-se de como gritou, implorando para que parassem por um segundo para se recompor, bêbada, cansa...